Crítica semanal Gabriela Manfredini

SOBRE A RELAÇÃO COM A CIDADE

A participação e a percepção da sociedade e dos indivíduos nas cidades e espaços públicos vem sofrendo grandes mudanças.

MAPS

Os aplicativos de localização como Google Maps e Waze ajudam no transporte, no ir e vir para lugares, às vezes, desconhecidos de forma mais fácil e rápida. Ao mesmo tempo, o homem perde parte de sua capacidade de observação e memorização da cidade, de localização e direção por si mesmo.

FOTOGRAFIA

As cidades estão sendo “observadas” através de telas de celular, são transformadas em imagens para serem postadas nas redes sociais e pensadas de forma quadrada, da mesma forma que serão postadas no Instagram. Os pedestres caminham olhando para suas telas sem se dar conta do que acontece ao redor. O celular – e a tecnologia em geral – bloqueia nossa capacidade de imaginação e interação social.

ESTADO

O Estado muitas vezes faz os habitantes da cidade sentirem que os espaços públicos não são seus por direito. As políticas públicas culturais são majoritariamente homogeneizantes e restringem as práticas nos espaços públicos. Em São Paulo, depois de colocar ciclovias, fechar avenidas aos domingos e feriados, mais grupos, pessoas e atividades culturais começaram a surgir e se desenvolver.

PATINETE

Empresas de patinetes elétricos entraram com força no Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, as críticas de má utilização são grandes. Eles são perigosos – particularmente nas mãos de motoristas imprudentes e se tornaram um verdadeiro aborrecimento no trânsito. Alguns usuários acham que são os “donos da rua”. Além disso, os patinetes são excludentes para qualquer pessoa que não tenha um smartphone – talvez os indivíduos de baixa renda e sem carro, os que mais poderiam se beneficiar deles. É também perceptível a diferença de comportamento quando se está de carro ou a pé. Quando caminhamos, observamos muito mais a cidade. Dirigir, de certa forma, desumaniza e nos distância dos outros.

ARTE

Tuca Vieira, fotógrafo que trabalhou na Folha de S. Paulo e no SESC diz, em sua tese de mestrado sobre mapeamento cognitivo que “se a imaginação é responsável pelo alargamento dos horizontes e pela exploração de novas possibilidades, é também uma forma de conhecimento, que pode contribuir decisivamente para solucionar os problemas atuais. E um dos suportes da imaginação é a arte.”

Um artista que se interessa por este assunto em específico é Santiago Cao. O artista argentino pesquisa em torno dos corpos em espaços públicos, as normas que são ativadas neles, e algumas maneiras possíveis de desviá-los através de performance, com-posições urbanas e filosofia. Há alguns anos ele desenvolve uma metodologia de investigação dos espaços públicos chamada “Cartografías sensíveis

Nesta metodologia, ele investiga sobre a normalidade, os desvios e transgressão nos espaços e lugares. Teoriza sobre os espaços públicos (agregadores), privados (excludentes) e íntimos (não convidativos) da sociedade. Sobretudo, investiga sobre a potência de encontro de dois indivíduos (ou mais) que tem ideias diferentes, mas que possibilitam a afetação e o encontro com o outro para que possam juntos expandir seu repertório (1+1=3).

ONDE ESTAMOS

Estamos num momento de evolução tecnológica nunca vista antes, onde grandes empresas têm controle sobre nossas localizações e dados. A alienação parece iminente, então se faz necessário o lembrete da observação e empatia com o espaço e as pessoas a nossa volta; de integração e mais práticas artísticas.

Citando novamente Tuca Vieira: “fomos ultrapassados por nossas próprias criações e corremos o risco de perder o controle sobre elas (…) ou tomamos conta do processo de produção dos mapas, historicamente dominado pelas altas instâncias do poder, ou será preciso descartá-lo se quisermos saber onde estamos.”

gabriela

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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