Crítica semanal Daniel Levy de Alvarenga

Sem os óculos e a mão, o que diria o poeta?

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Na semana passada, uma estátua de bronze de Carlos Drummond de Andrade, localizada no centro de Belo Horizonte, foi depredada ao ter a mão direita arrancada. Aqui no Rio de Janeiro, uma outra escultura de bronze de Drummond já teve os óculos arrancados pelo menos 11 vezes desde 2002, quando foi instalada num banco da orla de Copacabana. A depredação de estátuas e monumentos é bastante comum na cidade. O monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares (Centro) já foi pichado dezenas de vezes, a estátua do compositor Noel Rosa (Vila Isabel) teve seu braço quebrado, assim como o violão da escultura do maestro Tom Jobim (Ipanema).

Entre 1945 e 1962 o poeta mineiro foi servidor público do SPHAN (atual IPHAN), tendo chefiado a Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento. Drummond também escrevia colunas em jornais e frequentemente manifestava a sua preocupação com relação à falta de conhecimento da população a respeito do patrimônio cultural existente na cidade: “Vale a pena dizer, repetir, divulgar: Olha, pessoal, essas coisas aí estão protegidas por lei. Mas não basta essa proteção. É preciso que vocês aprendam a conhece-las e estima-las. Como se fossem coisas de vocês. Conhecendo-as, ajudarão a protege-las” (1).

A falta de informação, como destacou Drummond, contribui para a ausência de interesse da população a respeito das obras que possuem algum tipo de valor histórico ou estético. Por isso, ganha importância o tema da educação patrimonial, entendida como o processo permanente e sistemático de trabalho educacional, formal e não-formal, centrado no patrimônio cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo. Só por meio da educação é possível mudar valores e incluir a preservação do patrimônio cultural na rotina de vida dos cidadãos.

É preciso que as instituições de cultura, de educação e a sociedade em geral incluam a educação sobre o patrimônio em seus projetos, principalmente fora da sala de aula, andando pela cidade e observando seus lugares e suas manifestações culturais (2). Caso contrário, as autoridades administrativas responsáveis pela preservação do patrimônio sempre estarão às voltas com questões relacionadas ao abandono, depredação e descaraterização dos bens culturais.

 

 

Daniel Levy

Daniel Levy de Alvarenga  é formado em Direito e em História pela PUC-Rio. Mestre em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), linha de pesquisa “Patrimônio, Ensino de História e Historiografia”. Doutorando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa (UAL), desenvolvendo pesquisas sobre patrimônio cultural material e imaterial.

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