Crítica semanal Vanessa Tangerini

226 tiros

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”

O trecho acima foi retirado do conto “Mineirinho” que Clarice Lispector publicou após o assassinato com treze tiros do bandido José Rosa de Miranda, conhecido como Mineirinho, pela polícia carioca em 1962. Em uma entrevista de 1977, questionada sobre o seu conto, Clarice afirma: “Qualquer que tivesse sido o crime dele uma bala bastava, o resto era vontade de matar, era prepotência.”

No domingo passado, um veículo que transportava uma família foi fuzilado pelo exército brasileiro na zona oeste do Rio de Janeiro. Foram disparados 80 tiros, ocasionando a morte do músico Evaldo dos Santos Rosa. OITENTA.  “A gente ia morrer junto” afirmou a sua viúva. A razão? Era vontade de matar, prepotência. O crime? Ter nascido negro no Brasil. O exército matou um, mas fuzilou uma família inteira.

Sobre o mapa do Rio de Janeiro vou tentando criar uma espécie de cartografia da violência que vai sendo construída a partir de conexões. Traço uma linha de Guadalupe até o bairro Estácio e aí encontro a Marielle Franco. Ao igual que Evaldo, Marielle e Anderson foram surpreendidos enquanto viajavam em um veículo de cor branca.  Outro crime, dessa vez com claras motivações políticas, mas cuja violência me leva a conectar-los por além da banal coincidência que reside na cor dos carros fuzilados. Averiguo sobre o assassinato de Marielle e descubro que essa noite foram realizados treze disparos.

Treze disparos. Esse número me ressoa e me faz traçar outra linha: dessa vez da Estácio até a estrada Grajaú-Jacarepaguá, onde em 1962 foi encontrado o corpo de Mineirinho. Os treze tiros me levaram a unir-los. Lispector, como mencionei, havia escrito sobre Mineirinho. Quando perguntada sobre em que medida essa escritura poderia alterar a ordem das coisas, ela respondeu: “Não altera em nada. Eu escrevo sem esperança que o que eu escrevo altere qualquer coisa.” E a sua frase me leva a refletir sobre a capacidade (ou incapacidade) da arte em alterar algo.

Começo a pensar que, em meio ao absurdo indecifrável da violência do país, a arte talvez possa construir sentidos ao redor desses acontecimentos. Em todo caso, antes que sentido, ao menos há de permitir traçar um mapa para não perder-se entre a violência. Traço uma linha da estrada Grajaú-Jacarepaguá até o bairro do Maracanã, na antiga Favela do Esqueleto. Conecto o relato de Clarice com a obra de Hélio Oiticica (1), a sua bandeira-poema “Seja marginal, seja herói” que insere a frase que a nomeia junto a uma imagem do traficante Cara-de-cavalo, amigo do artista executado com 120 tiros (dos quais 52 lhe atingiram) pela policia em 1964. Dois acontecimentos violentos e duas manifestações artísticas, contemporâneas no tempo, me levaram a traçar mais uma linha-conexão sobre o mapa.

Crítica 13-04 Imagem Texto
Bandeira-poema (Seja marginal, seja herói), 1968, de Hélio Oiticica.                                                                     Reprodução fotográfica Andreas Valentim

Em Buenos Aires, um coletivo realiza uma intervenção (não autorizada) em homenagem à Marielle em uma estação do metrô que, então, se transforma em “Estação Rio de Janeiro – Marielle Franco”. O ato de “vandalismo” surge como um grito ante o sem sentido dessas mortes. Tentativas de decifrar, ou apenas resistir, à violência absurda do autoritarismo. Um conto, um estandarte, uma placa, um mapa. Vou conectando os quatro acontecimentos através de uma cartografia mais mental que física.

Volto a pensar em Clarice: “o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que esta­mos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.” E, então, sem entender muito retorno ao presente, onde o exército brasileiro, responsável pela “defesa do país” e pela “garantia da lei” fuzila a sua própria população. Onde as falas dos políticos legitimam ações violentas. Penso que uma sociedade que justifica a morte violenta dos seus criminais termina tolerando a morte absurda dos seus cidadãos.

Disseram que a nossa bandeira jamais seria vermelha, mas ela está manchada com sangue. Mais que manchada, ela já goteja. Penso nisso e sei que o mapa ainda não está terminado.

Volto a pensar em Clarice:

“É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido com­preendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.”

E prefiro continuar sendo doido.

Notas:

(1) Essa associação entre o relato de Clarice Lispector e a obra de Oiticica também é reforçada por eu ter presenciado, há alguns anos atrás, uma curadoria que colocava em diálogo a já mencionada entrevista de Lispector com a bandeira-poema de Oiticica.

(2) Imagem de fundo: Obra “5664 Mulheres”, 2014, de Beth Moysés. Vidro, cápsulas de bala de revolver usadas e tule bordado com pérolas. Fonte: Galeria Murilo Castro.

 

Vanessa Tangerini
Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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