Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Ço o tempo

O corpo é tema constante desses poemas. Tema e figura. Olhar, envelhecer, transar. O corpo tecido ou talhado pela memória, o poema como corpo enterrado vivo, o osso da poesia atravessado na garganta. Os textos estão manuscritos, os papéis onde se escreveram estão nitidamente recortados na página, ora amarelados pelo tempo, ora pautados, ora rasgados. São poemas escritos entre 1975 e 1981. A memória do corpo antigo, guardada na caligrafia segura, irradia dos poemas há décadas arquivados, e participa do sentido dos textos a demora na publicação, o envelhecimento dos papéis onde se anotou o corpo.

Esse o sentido mais delicado dos poemas de Lygia de Azeredo Campos. Poeta bissexta, mas não inédita, alguns dos textos saíram nas heroicas revistas Código e Artéria, às vezes tendo recebido tratamento tipográfico sobre fundo colorido. A publicação fac-similada, porém, preserva o aspecto de anotação, que, no entanto, não manifesta urgência ou vertigem como os papéis rasgados anotados por Clarice Lispector ou os embrulhos dos maços de cigarro escritos por Antônio Fraga. São, antes, micro-ensaios sobre o corpo e a linguagem, e nos quais a poesia concreta comparece mais como método do que como forma. Lygia conviveu profundamente com os poetas concretos e esses textos revelam tanto a diversidade das poéticas experimentais a partir de poesia concreta, neoconcretismo, poema/processo, quanto também o teor filosófico que marca essas poéticas experimentais sempre próximas dos limites do poema, da linguagem, da experiência.

Lygia, na introdução, identifica uma dualidade entre as “formas visuais” que liberam a sintaxe dos poemas e a “grafia manuscrita” que manifesta despretensão e a sua vivência com a poesia. O poema aparece na página como uma assinatura, com a marca caligráfica singular da autora, agora de corpo ausente. Escreve, por exemplo, a nota de um diário impossível: “adormeço. mereço? / meço as palavras, me- / ço o tempo, envelheço”. O sono acordado durante o qual escreve, como num sonho, produz a metamorfose da poeta em linguagem. O tempo das palavras medido, em versos hexassílabos, fissura a palavra, “me- / ço”, que então engendra um ato falho, ou, no poema, ato construído: “sou o tempo”, “soo o tempo”. O aspecto vivencial (“sou”) existe em função do canto (“soo”), do dizer – e escutar – a língua do poema.

O corpo entre a cabeça e o texto intervém, torcendo a frase em espiral até o centro teórico, a terra: “a cabeça leva loucuras na sua casca caracol que rola e para oca ouvindo a terra”. O vórtice do caracol organiza, no espaço, a loucura da cabeça, figurando o cérebro. Que, no entanto, no texto, é uma espécie de casca, envoltório do espaço vazio, oco, e onde se mora, oca, em contato com a terra. O léxico abstrato (“tempo”) ou destacado do cotidiano (“a cabeça”, “a terra”), a sintaxe e as formas visuais geometrizadas, estão trançados com o vocabulário do corpo, a grafia manuscrita, os papéis amarelos. Os poemas não chegam a tomar forma tipográfica, como se quisessem manter-se em estado gestacional, entre público e privado, publicados e guardados, prontos e inacabados. Lançam, assim, ao poema que Lygia recebeu em homenagem de Augusto de Campos, em 1953, “lygia fingers” – onde “lygia finge ser digital” – um comentário irônico.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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