Crítica semanal Ombela Assumpção

Um problema do método

a rede de vogel

As artes indígenas, assim como as africanas, foram afirmadas inicialmente como referências dentro de temáticas da modernidade, mas a partir dessa tomada de consciência, tais manifestações passam a ser incorporadas e então a problemática do descolamento, posta em questão como problema metodológico, é evidenciada e passa, de fato, a ser material para o levantamento de hipóteses e estudos aprofundados, dentro das possibilidades desses objetos que são dados num primeiro momento como artefatos.

Nicholas Thomas afirma que os objetos são “promíscuos” e podem mover-se livremente entre domínios culturais/ transnacionais, sem serem essencialmente comprometidos. Eles só podem fazer isso porque  não tem nenhuma essência, só uma gama ilimitada de possibilidades. Ao fazer essa afirmação, o antropólogo australiano se ocupa de validar uma arte de minorias, uma arte não ocidental que se inicia ativamente dentro de uma lógica moderna.

No entanto, a promiscuidade dos objetos não seria o ponto central, pois é relativo afirmar se os objetos conservam uma essência. Quando um conjunto de antropólogos diverge na proposta de conceituação da arte, porém elegem objetos parecidos a se posicionarem enquanto tal, a suposta essência afirmada (aqui pela antropologia) deve ser questionada. A hipótese é que de modo coletivo existe uma latência imagética projetiva em comum que os faça considerar tais objetos enquanto artísticos, ou podemos considerar ser a própria manifestação da essência do objeto demonstrando sua incapacidade de se libertar.

A alogicidade que se manifesta na poesia lírica, carrega uma proposição válida a ser considerada pela teoria interpretativa da arte. Conteúdos que manifestam uma lógica própria e que à primeira vista são inacessíveis, como na poesia, na arte que carrega conceitos o objeto precisa ser tomado com determinados cuidados e dentro de suas possibilidades agentivas (dadas pelo contexto, assimilação por estrangeiros ao objeto, e finalidade/ funcionalidade). Quero ressaltar a assimilação como possibilidade conceitual agentiva ao espectador de arte contemporânea, responsável em potencial pela absorção. Ir ao museu, tornou-se prática de pesquisa, a grosso modo. A ênfase, dada principalmente pelos curadores, na atividade artística residente em objetos não inseridos a uma lógica estética limitante é um fenômeno que tem conduzido cada vez mais a entrada das artes de minorias para o mundo da arte, desconstruindo as estruturas hierárquicas vigentes e ampliando a gama de possibilidades interpretativas das propostas curatoriais.

Boris Groys, na sequência do estruturalismo francês, fala de um “arquivo cultural”, que ele diferencia do “espaço profano”. Todas as inovações – afirma a sua tese – surgem de fora desse arquivo ou em contradição com os valores representados nele, embora adquiram seu significado pleno somente quando são ali acolhidas e integradas assim na “memória cultural” que é garantida pela sociedade […] Quanto mais e mais rápido absorve algo novo, tanto menos pode garantir a hierarquia sob a antiga existência, questionada não somente pela abrangência, mas também pela peculiaridade de cada novidade.

Arte, como um conceito de origem europeia renascentista, torna essa proposição muito válida.  No entanto, ao considerarmos que existe uma aderência de signos da cultura ocidental por parte de alguns povos não ocidentais, retornamos à relativização cultural. Como por exemplo, a inserção de tecidos produzidos fora da aldeia ou a produção de adereços em que a matéria-prima são miçangas.

Se esse movimento de diálogo é estabelecido, desses povos para nós, por que não estabelecermos daqui para lá, de modo a contemplar suas próprias dinâmicas, sem descolar os objetos produzidos, ou seja, horizontalizando tal relação?


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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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