Crítica semanal Gabriela Manfredini

Tempestade em banho d’água fria

Ciclone em Moçambique, chuva no Rio, Dória cortando gastos de museus e instituições culturais, a reciclagem de lixo no mundo em caos, a Argentina cada vez mais pobre, agrotóxicos liberados no Brasil, Julian Assange preso, Notre-Dame em chamas… Se alienígenas pousassem na Terra em abril de 2019, eles teriam pena de nós.

De todas as notícias, gostaria de focar nos desastres naturais. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) emitiu um relatório em março confirmando que 2015, 2016, 2017 e 2018 foram os quatro anos mais quentes registrados até hoje. O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, pediu ação climática urgente.

A crise ambiental tem levado artistas contemporâneos a se envolverem com resíduos em suas formas mais não biodegradáveis: plásticos, lixo eletrônico, lixo tóxico. Esse movimento vem ocorrendo desde o surgimento da economia global do petróleo e do pensamento ecológico. Quando analisada em relação ao clima político, científico ou ecológico, a arte é considerada meramente ilustrativa; porém ela é constitutiva da consciência ecológica, não simplesmente uma extensão dela.

O título-tema da Bienal de Istambul que ocorrerá de 14 de setembro a 10 de novembro deste ano é “O Sétimo Continente” e contará com curadoria de Nicolas Bourriaud. O nome faz referência ao continente de lixo plástico que está se formando entre a costa leste dos Estados Unidos e a costa oeste do Japão, mais ou menos perto do Havaí. A exposição “irá explorar este novo continente: um mundo onde humanos e não-humanos, nossos sistemas produtivos em massa e elementos naturais, se juntam, reduzidos a partículas de resíduos.” Bourriaud é conhecido por ter inventado a “estética relacional” no seu livro de mesmo nome publicado em 1998. Entre seus temas de interesse no chamado “alter-modernismo” – termo criado por ele para descrever a sociedade após década de 60 onde o mundo é marcado pela globalização – são a relação do homem com a natureza, os algoritmos e o ser artificial.

Entre os muitos artistas que tem trabalhado com o tema da mudança climática, destaco aqui o projeto “A Durational Performance with the Sea” (Uma performance duradoura com o mar) da artista Sarah Cameron Sunde. O projeto que começou em 2013, terá duração de sete anos e percorrerá os seis continentes. A artista fica em média 12/13 horas em pé no mar sentindo os efeitos da maré e convida o público a se juntar a ela. Uma das performances da série foi feita na baía de Todos-os-Santos em Salvador. A intenção é mostrar o impacto da água e da subida do nível do mar, decorrente do aquecimento global.

Há ainda um grupo inglês chamado “Art Not Oil”. O grupo é formado por artistas, ativistas e frequentadores de museus e galerias que acreditam que os logotipos das empresas de petróleo representam uma mancha em instituições culturais. No site do grupo, eles afirmam que “As companhias de petróleo cultivam relações de patrocínio de artes e cultura para ajudar a criar uma “licença social para operar”. Há apenas uma década, as empresas de tabaco eram vistas como parceiros respeitáveis das instituições públicas. Isso não é mais o caso. É nossa esperança que as empresas de combustíveis fósseis sejam vistas em breve na mesma luz. O público está rapidamente percebendo que os programas de patrocínio da BP e da Shell são meios pelos quais a atenção pode ser distraída de seus impactos sobre os direitos humanos, o meio ambiente e nosso clima global.” O grupo pede que museus removam obras com tinta a óleo de seus acervos como forma de protesto.

A China, o país que mais gera dióxido de carbono, já enfrenta problemas sérios. Num mundo onde governos como Brasil e Estados Unidos são marcados por retrocessos na legislação ambiental e negacionismo das mudanças climáticas, artistas, ambientalistas, professores tentam fazer seu papel educando e abrindo os olhos de quem ainda não quer ver.

*foto de capa: A Durational Performance with the Sea da artista Sarah Cameron Sunde

gabriela

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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