Crítica semanal Vanessa Tangerini

Ovelhas negras: mulheres escultoras do séc. 19 nos EUA

Quantas mulheres artistas anteriores ao século 20 nós conhecemos ou podemos enumerar? De fato, são poucas as artistas dos séculos passados reconhecidas pela história e, em sua maioria, trata-se de pintoras. Sobretudo, porque a escultura (ainda mais do que a pintura de cavalete) era uma atividade atribuída aos homens.

Dentro desse panorama me interessa mencionar um grupo de artistas conhecidas como The White Marmorean Flock (o rebanho marmóreo branco). Sob esse nome acunhado de modo pejorativo, Henry James agrupou as escultoras estadunidenses expatriadas do século 19. Entretanto, ao agrupar-las desta forma anulou as diferenças existentes entre elas, tanto pessoais como artísticas. Estas artistas são: Louisa Lander, Harriet Hosmer, Anne Whitney, Emma Stebbins, Edmonia Lewis, Margaret Foley, Florence Freeman e Vinnie Ream.

Em seu livro Women, art and society, a historiadora Whitney Chadwick dedica um capítulo para abordar a presença de mulheres na produção artística estadunidenses do século 19. Chadwick destaca que, naquele momento, a geografia e a classe social tiveram um papel significativo na configuração das trajetórias das artistas estadunidenses, já que a maioria das mulheres que fizeram parte deste fenômeno era oriunda de famílias ricas e educadas da Costa Este dos Estados Unidos.

Algumas destas escultoras realizaram um corpus de obra onde representaram mulheres fortes e resistentes frente às ameaças patriarcais. Irei destacar a produção de duas: Harriet Hosmer e Edmonia Lewis. Hosmer foi a primeira em viajar a Roma e, abrindo mão do matrimonio, considerava que sua profissão era a sua família, e suas esculturas os seus filhos. Na obra Beatrice Cenci (1857) a artista toma a história de uma nobre italiana do séc. 16 que havia assassinado o seu pai violento, quem abusava de sua esposa e filhos. Cenci é representada enquanto dorme, em seu único momento de calma prévio a sua decapitação. Em Zenobia acorrentada (1859) representa a rainha de Palmira, do séc. 3, que havia sido derrotada e captura pelos romanos. No entanto, a artista se opõe às fontes literárias e representa a Zenobia com um semblante digno e forte frente à sua derrota.

Crítica Sábado 20-04 Imagem Texto 1
Artist : William Dobell (Australia, b.1899, d.1970) Title : Date : Medium Description: blue ballpoint pen Dimensions : Credit Line : Gift of the Trustees of the Sir William Dobell Art Foundation 1990 Image Credit Line : Accession Number : 1221

Crítica Sábado 20-04 Imagem Texto 2

Edmonia Lewis, a diferença da maioria, não provinha de uma família endinheirada. Era filha de um escravo libertado e de uma nativa ojibwa. Durante a sua formação, diversos escultores se negaram a ensinar-la o ofício. Contudo, chegou a ser a primeira artista afroamericana e de raízes indígenas a conquistar o reconhecimento no campo da escultura. Seus trabalhos abordam temáticas relacionadas à luta abolicionista, à luta feminina e aos povos nativos. Na escultura Livres para sempre (1867) representa a dois escravos recém libertados. Porém, essa liberdade não é total e a mulher, em uma posição servil, ainda possui uma manilha em seu tornozelo.

Crítica Sábado 20-04 Imagem Texto 3

Como aponta Chadwick, essas escultoras conseguiram se integrar a um sistema masculino de produção artística. Contudo, isso não significa que não tenham sido alvo de fortes e constantes críticas que as consideravam artistas menores, ou que julgavam suas obras a partir de adjetivos construídos sobre uma “feminidade” que era vista sempre como um aspecto desdenhoso. Alguns, inclusive, atribuíam suas esculturas aos seus mestres já que a masculinidade frágil não lhes permitia aceitar o fato de que havia grandes mulheres criando grandes obras de arte.

O próprio Henry James afirmava, de forma pejorativa, que no grupo havia “uma negra, cuja cor, contrastando de algum modo pitoresco com o do material que trabalhava, era o melhor advogado da sua fama”. Atribuindo, dessa forma, a fama de Edmonia ao “exotismo” de uma mulher negra atuando em um meio artístico branco-patriarcal, ao invés de reconhecer a sua capacidade como artista e criadora.

Se bem essas artistas gozaram de certo reconhecimento em sua época e hoje são reconhecidas por algumas correntes historiográficas, é importante seguir desvendando e abordando os seus trabalhos. Além disso, suas histórias também nos servem como ponto de partida para seguir perguntando por, ou resgatando, outres artistes que tenham ficado por fora dos relatos. Finalizo com duas perguntas Você conhecia alguma dessas artistas? Qual artiste você indicaria?

Fonte: CHADWICK, Whitney. Mujer, arte y sociedad. Barcelona: Destino, 1992.

Imagem de fundo: Harriet Hosmer (no centro) rodeada por seus assistentes em seu atelier em Roma, 1861.

 

Vanessa Tangerini
Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s