Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

O lápis de Adília Lopes

Apanhar ar foi publicado em 2010 e é um livro singular na trajetória de Adília Lopes. Com 48 páginas, o livrinho publicado pela editora Assírio & Alvim apresenta 18 poemas, o maior dos quais com sete versos curtos, seguidos das “Interpretações visuais através da música”, uma série de desenhos a lápis colorido relacionados com músicas identificadas ao pé da página. Fibich, Grieg, Händel, Chopin e Prokofiev são os compositores interpretados pelos desenhos, que no entanto pouco variam entre um e outro, assemelhando-se a rabiscos distraídos ao telefone, desenhos de criança, pocket Pollock.

O livro começa pedindo inspiração, pelo título inspirador, “Apanhar ar”, cuja pronúncia gaga atrapalha a respiração, e por uma invocação às musas, o primeiro poema: “Musa parca / musa muda”. Daí em diante, o fôlego é curto, a memória quase nem existe. Aos “50 anos”, título do texto mais extenso, a poeta considera: “Talvez escreva / poemas / que já li / que outros já escreveram / que eu mesma já escrevi / esqueço-me / da minha vida”. É “tempo de não”, de “dar menos um passo”, de agradecer a poesia e os legumes, pois “os legumes dão-me paz”. A sombra das árvores na cortina, a porta verde da casa em frente, a tartaruga do térreo, as flores na varanda velha e o café (“rua / e casa”) são índices de uma rotina solitária e doméstica salvos do esquecimento e da morte pela mínima respiração do poema.

O texto acontece quando faz o menor sentido, como nesse poema-citação de Claudel: “O tempo passa / passa-se alguma coisa”. O que se passa na música poderia se assemelhar ao que se passa no poema, a princípio como mínimo acontecimento. No entanto, a duração dos poemas na leitura destoa da duração das músicas desenhadas por Adília Lopes. São muitas, talvez centenas, as voltas, os círculos, as espirais rabiscadas sobre papel colorido pela poeta em cada um dos oito desenhos reproduzidos, como se tivessem sido desenhados durante a audição. O choque entre a elaboração sinfônica das músicas e o lápis monótono dos desenhos é muito da força do trabalho de Adília Lopes, que na sua obra reúne formas de negatividade radical com a figuração do cotidiano comezinho.

Um encontro improvável entre poéticas como as de Manuel Bandeira e Augusto de Campos, ou também poderia, continuando a brincar, pensar esses desenhos como o improvável encontro entre Pollock e Volpi. A brincadeira talvez esteja em notar a vida. O aspecto da notação, do grafismo, da linha, da letra, do ato, enfim, de escrever ou desenhar, está em tensão com a micronarrativa, a citação, a rememoração, as experiências, enfim, vividas e elaboradas. Essa maestria em continuar vivo como poeta é, para mim, nos poemas como nos desenhos, a lição do lápis de Adília.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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