Crítica semanal Ombela Assumpção

137. Não-branco

 

ombela

Não quero levantar aqui o que já se sabe sobre a política de embranquecimento da população africana e indígena no Brasil. No que tange esse aspecto, as camadas de significado de Redenção de Cã já foram bastante exploradas, sei disso. Me interessa entender a persistência dessa imagem e o que sua reverberação suscita, ou pelo menos de forma breve enxergar algumas fronteiras posto que o filho do português, português não é.

Redenção de Cã, usada pelo médico João Batista de Lacerda no I Congresso Universal das Raças para ilustrar sua proposição, refere-se a um momento que seria transitório. Ou seja, na ocasião essa imagem ilustrou o que seria um processo para um fim, a saber, o progresso do Brasil. Portanto, mulheres negras no sentido de embranquecer seus descentes  e “suavizar” os traços negróides deveriam procurar parceiros brancos para que assim “diluir” a raça. Para o médico eugenista, se esse movimento fosse realizado por durante três gerações, em cem anos gozaríamos de uma população majoritariamente branca.

Passaram-se 108 anos, desde que essa tese foi defendida, e nosso fenótipo jamais foi tão diverso com variações tonais tão discrepantes. Em nossa maioria, estamos bem longe do ideal europeu.  Inicialmente a miscigenação foi fruto de sucessivos casos de estupro de mulheres africanas e indígenas – daí a recorrência da afirmação “minha vó foi pega a laço”. Sabe-se que a mistura não foi uma escolha e que até hoje os brasileiros reproduzem uma visão idealizada da miscigenação, mas essa salada de frutas que se tornou o Brasil além de ser uma mutilação e uma lacuna na história de muitas famílias ainda nos coloca em uma posição de confronto com a nossa própria imagem. pois estamos longe de parecer incredulamente pálida da profecia de Modesto Brocos.

No  ano de 1976 o censo racial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi realizado a partir da atribuição dos próprios brasileiros sobre si. Então, ao invés do pesquisador determinar as possibilidades de pertencimento étnico, tal atribuição era informada exclusivamente pelo entrevistado. O resultado da pesquisa foi a identificação de 136 cores, expondo-nos o principal problema da mestiçagem, sob meu ponto de vista, o apagamento identitário. Não que a política de segregação racial vivida por nossos irmãos nos Estados Unidos tenha sido um brazilian dream, nossa necessidade de definição dentro desse território – cemitério indígena – está mais no sentido de um dever para com nossos ancestrais, a vida dos mais novos e os que estão por vir.

Apesar do modelo binário de classificação não dar conta da complexidade da situação racial híbrida do povo brasileiro, é sabido que o regime de pigmentocracia ainda rege as relações por aqui e que infelizmente desconhecemos o que seria a utópica democracia racial. Para a preocupação dos eugenistas, os cálculos deram errado e nós sobrevivemos ao apagamento da história de nossos ancestrais, que é também nossa história. Como coloca Rosana Paulino, ao discutir a produção de fotografias do pseudociêntista Louis Agassiz, é importante discutirmos de que forma essa imagens podem ser subvertidas e como podemos “mudar suas chaves de leitura”. E para que isso seja eficaz, podemos nos perguntar de que modo essas imagens ainda reverberam em nós?

*Imagem da capa: registro fotográfico de Vicente de Mello da obra Tintas Polvo de Adriana Varejão.

 

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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