Crítica semanal Gabriela Manfredini

França: eurocentrismo e neocolonialismo

A França garante o acesso aos mercados em suas 14 ex-colônias na África (Benim, Burkina Faso, Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal, Togo, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Congo, Guiné Equatorial e Gabão) até hoje, 57 anos após a independência. Mecanismos para apoiar isso são: uma moeda compartilhada (o franco CFA), presença militar, diplomacia secreta e controle de sua língua e cultura. Os benefícios são de interesse comercial: acesso a recursos e mercados.

Franco CFA

O franco CFA foi criado em 1945 pela França e estava atrelado à moeda francesa da época, o franco. O franco CFA está agora indexado ao euro. Em troca de garantir a moeda, a França detém 50% das reservas cambiais em seu tesouro. O uso do franco CFA tem sido aplaudido por algumas pessoas como uma força estabilizadora, e criticado por outros como uma ferramenta do neocolonialismo que deixou os países sem controle de sua própria moeda.

O vice-primeiro-ministro da Itália, Luigi Di Maio, culpou a França pela crise dos migrantes europeus, acusando-a de empobrecer as nações africanas com políticas “colonialistas”. Ele prometeu levar a questão para a União Europeia (UE) e outros organismos internacionais. Di Maio aponta especificamente para o envolvimento francês na zona do franco CFA na África como explorando o continente e impulsionando a migração, dizendo: “A França é um daqueles países que, imprimindo dinheiro para 14 estados impede o desenvolvimento e contribui para a saída dos refugiados.”

Departamentos ultramarinos

Além das 14 ex-colônias africanas, a França também possui departamentos franceses ultramarinos. Estes são territórios franceses administrados fora do continente Europeu: 13 territórios espalhados pela América, África, Oceania e Antártica.

China

No mês passado, Macron, embarcou em uma viagem de quatro dias em toda a região do Chifre da África, parando em Djibuti, Etiópia e Quênia. A viagem é amplamente vista como uma tentativa de consolidar novos laços em uma região onde a influência da China vem crescendo rapidamente.

Números de 2015 estimam que o comércio da China com a África ficou em mais de US$ 185 bilhões. Em comparação, o comércio com a França foi de US$ 57 bilhões. Porém, grandes projetos de infraestrutura realizados por empresas chinesas na África são muito caros e sobrecarregam os países anfitriões com enormes dívidas que eles provavelmente não conseguirão pagar.

Artefatos

Um relatório sobre a possível restituição da arte africana da França foi entregue em novembro do ano passado. O processo de pesquisa de oito meses provocou certa ansiedade em todo o país desde que o presidente francês, Emmanuel Macron, solicitou formalmente em março de 2018, de retornar obras de arte saqueadas e de herança africana para seus países de origem.

Observa-se no relatório que cerca de 90% da herança cultural africana existe atualmente fora do continente e é exibida em importantes museus ocidentais. Os museus e instituições francesas abrigam aproximadamente 90.000 artefatos africanos, com cerca de 70.000 só no museu de Paris, no Quai Branly. A perda que as nações africanas sofreram durante a era colonial não é compensável, embora a restituição de artefatos culturais possa permitir que os jovens africanos tenham acesso a sua história, habilidade e recursos.

O relatório é novo e impactante. Ela exige que a lógica do relacionamento da França com a África seja renegociada. Não é simplesmente sobre os objetos e onde eles estão. Ao insistir na restituição integral, a ideia de “empréstimos a longo prazo” para os países africanos torna-se absurda.

Notre-Dame

Após o incêndio da Catedral de Notre-Dame localizada em Paris as doações para sua reconstrução já ultrapassam a soma de R$ 2,6 bilhões. Enquanto isso, a Unicef continua tentando a semanas arrecadar 122 milhões para auxiliar as milhares de vítimas do ciclone e das enchentes no Zimbábue e em Moçambique.

Jonathan Marcelino, defensor da causa negra defende que “essa discrepância de recursos, de cobertura midiática e de sensibilidade coletiva é a naturalização mais explícita do perverso projeto colonial moderno-capitalista bem como do processo de marginalização dos povos que não fazem parte do mundo ocidental.”

Os povos africanos são legitimamente agravados pelas lágrimas brancas para Notre-Dame, e o povo que continua a sofrer até hoje pela opressão econômica e aniquilação de seus recursos naturais, que nunca são totalmente compensadas de volta.

gabriela
GABRIELA MANFREDINI 
é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: