Desvio Indica

Camilla Braga – Entrevista

A coluna Desvio Indica apresenta artistas para o público toda sexta-feira. As primeiras cinco foram realizadas com artistas premiados pela Desvio no II PEGA (2018). Entrevista realizada por Clarisse Gonçalves. 

Camilla Braga (Rio de Janeiro, 1994). É artista contemporânea, trabalha e reside no Rio de Janeiro. Sua pesquisa lida com a posição do artista no circuito de arte contemporânea: questões de prestígio e sucesso; o artista enquanto micro/macro empresa. O que qualifica um trabalho de arte em relação ao lugar que está inserido, meritocracia e visibilidade no circuito, a partir de questões sociais e mercado de trabalho.

Clarisse Gonçalves: Camilla, porquê esses trabalhos? O que eles contam sobre você?

Camilla Braga: Escolhi esses 4 trabalhos [as imagens estão distribuídas ao longo do texto] pois acredito que eles percorrem uma narrativa. Na Faixa, divulgo meu trabalho nas diversas linguagens que a arte contemporânea possibilita: Performance, videoarte, instalação, etc… Numa referência ao artista-etc de Ricardo Basbaum, deixo aberta as alternativas técnicas de produção de trabalho de arte. Eu sou o que precisar ser. Artista, escritora, pesquisadora, curadora. Penduro quadro, prego na parede, pinto, coloco massa, lixo parede… Basbaum se refere ao circuito de arte e como ele funciona, no sentido de especificações trabalhistas de produção, ao passo que, a minha volta, percebo diversos amigos sendo o que chamo de artista-mais-que-etc. Esta é uma teoria que inventei a partir do artista-etc. Artistas-mais-que-etc são pessoas que, além das multiplicidades que precisamos assumir enquanto artistas contemporâneos, como desenvolvido por Basbaum, lidam também com questões sociais de gênero, cor de pele, sexualidade, exílio social. Nossa presença, nossos movimentos nos espaços da arte contemporânea ainda são um ato político de afirmação. Atravessamos importantes questões além das paredes da instituição de arte. No segundo e terceiro trabalhos da narrativa, Obra em Obras e Óleo sobre tela, proponho uma escultura e uma pintura que são trabalhos vazios enquanto objeto de arte tradicional. No primeiro, o objeto é a estrutura que protege o vazio e no segundo, o atelier de artista é montado por completo, mas pintura e escultura enquanto as tradicionais da história da arte não existem de fato nestes trabalhos. São apenas proposições, são promessas… Por fim, sou premiada como Artista do mês, penso numa relação entre arte e leis trabalhistas, onde quem ganha realmente pelo esforço do funcionário, é o patrão. No nosso caso, o mercado sempre ganha. Nesta narrativa, sou funcionária do mês mesmo tendo produzido “nada”. É também sobre meritocracia, visibilidade, quem está dentro e quem está fora do circuito (principalmente mercadológico) da arte contemporânea.

CG: Em Obra em obras e Óleo sobre tela são utilizados materiais que estabelecem diferentes relações entre espaço-obra-artista, como você enxerga essas relações no circuito de arte contemporânea?

CB: Em Obra em obras e Óleo sobre tela, proponho uma escultura e uma pintura que não existem enquanto objeto e imagem esperados. O vazio no centro do Obra em obras aponta para algo que está eternamente em construção, sobre o processo de monte e desmonte, ruína em edificação. Obra em obras é feito para ocupar passagens, atrapalhando o caminhar pelo hall da galeria, é um incômodo, mas aponta para o progresso. Um sacrifício a ser cumprido em nome da evolução. Já Óleo sobre tela oferece toda a estrutura teoricamente necessária para que qualquer um seja artista. Nele, monto um atelier completo, tem uma placa que diz “permitido ser artista” mas, invés de tinta óleo, ofereço óleo de cozinha. Provoco sobre o papel que nós mulheres ainda ocupamos no circuito de arte e, além disso, as ferramentas necessárias para que sejamos artistas, no sentido de poder trabalhar exclusivamente com isto, sem que precisemos nos desdobrar e trabalhar paralelamente com outras coisas para nos sustentar, além das questões de estrutura social que disse anteriormente. O retorno financeiro é um obstáculo para jovens artistas no geral, até porque o tempo de investimento é muito grande e o retorno nem sempre garantido. Este cenário se agrava de acordo com o distanciamento destes territórios, que tem fronteiras muito bem delimitadas. Por isto, nossa inserção ainda é um ato político, uma vez que arte é historicamente feita para ser degustada pela elite e este cenário segue em manutenção. Para a periferia acessar os principais centros culturais do Rio de Janeiro, é preciso um esforço enorme de deslocamento, além do preço da passagem e fatores que quase passam desapercebidos, mas até a arquitetura do ambiente influencia no quanto o espectador se sente acolhido ali,não esquecendo, claro, das regras de comportamento: não atravessar a faixa amarela, não tocar, não falar alto… Óleo sobre tela é sobre quebra de expectativa, frustração, sobre (não) ter as ferramentas para circular no cenário da Arte Carioca, mas criar seu próprio circuito, encontrar outros modos de continuar produzindo e não parar. A imagem formada não é o que se espera de uma pintura tradicional, mas, ainda sim, é uma imagem. É um outro tipo de imagem, uma imagem imprevisível porque ultrapassa as barreiras da imagem tradicional, conservadora.

CG: Artista do Mês faz uma referência ao modo de trabalho que visa, além de tudo, resultado e produtividade. Qual a ligação entre essas características e seu trabalho? Pensando o artista atual e o lugar que ocupa em uma sociedade hierarquizada?

CB: No contexto desses quatro trabalhos, artista do mês pode ser lido como um prêmio pra quem não fez nada. Com ele, penso a influencia das instituições de arte no processo de legitimação do artista. Penso em duas maneiras de ler este trabalho, de acordo com a narrativa apresentada. Na primeira, não produzo “nada” e mesmo assim sou premiada, é sobre meritocracia no mercado. Apesar de estarmos lidando com subjetividades e objetos efêmeros, poéticos, o título de artista me traz legitimação e visibilidade sem precisar da minha força de trabalho real. Por outro lado, a força de trabalho existe, uma vez que, por mais que no trabalho de Obras não exista o objeto no centro, existe a escultura que cerca o vazio. Na pintura a óleo, o trabalho, além da instalação de atelier, produz uma imagem a partir da gordura do óleo na tela. Ou seja, não trabalhei das maneiras tradicionais, mas minha força de trabalho, de pensamento, de pesquisa e poética, estão ali. Por isto, recebo o título, que é dado por mim à mim mesma, numa era onde grandes artistas funcionam como empresas. Basta abrir o instagram do studio Olafur Eliasson pra perceber como o moinho gira ali, são vários funcionários, eles tem até refeitório e funcionários de cozinha. Olafur é uma empresa. Neste sentido, me coloco como empresa, como instituição também, uma vez que, para mandar propostas para alguns centros culturais é necessário ter CNPJ. Ser empresa faz parte do ser artista-etc e também do artista-mais-que-etc, ocupamos o papel de vários funcionários em 1 corpo, meu corpo.

faixa-1_581
Faixa (2017)

 

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Obra em Obras (2016)

 

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Óleo sobre tela (2017). A proposta é que o público interaja com a instalação, produzindo uma pintura, sendo oferecido óleo de cozinha invés da tinta óleo tradicional.
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Artista do mês (2017)

Contato da artista

Portifólio online: http://cargocollective.com/CamillaBraga

CV: http://cargocollective.com/CamillaBraga/CV

Exposições coletivas

2015 | Tertúlia de encerramento, EAV do Parque Lage

2015 | Exposição Novas Poéticas – Reitoria – UFRJ

2016 | Mostra de Performances Sara-há #2 – Espaço Saracura

2016 | Exposição Intervenções entre XIX e XXI – MNBA

2017 | Abraço Coletivo – Saracura

2017 | IV FAC – Instituto de Artes e Design – UFJF

2017 | Histórias fora da Ordem – Museu Histórico Nacional

2017 | Mostra na Phábika – Centro Cultural Phábrika

2017 | I PEGA – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica

2017 |Saguão de Arte Cura – Reitoria – UFRJ II

2017 | FestFic Faixa – Fórum de Ciência e cultura da UFRJ

2018 | Escrevo para me percorrer – CCJF

2018 | Uranus 1001 Faixa – Exposição coletiva em casa

2018 | Greve Geral Faixa – Centro Cultural Phábrika

2018 | Mesa de Cabeceira Pintura sobre Faixa – A Mesa

2018 | A Título Precário – Centro Cultural Phábrika

2018 | Semana de Histórias das Artes: À Margem? – Reitoria UFRJ

2018 | II PEGA – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica

2018 | Cenas para outras linguagens – EAV do Parque Lage

2019 | Verão em Queimados – Golfinhos da Baixada

Exposições Individuais                                                                                                             

2017 | Certificamos que esta é uma Exposição, Antiga fábrica da Bhering

2017 | Óleo sobre Tela Novas Poéticas – Fórum de Ciência e Cultura – UFRJ

Exposições Invadidas

2017 | Carpintaria para todos Galeria Carpintaria

2018 | Abre Alas A Gentil Carioca

Seminários e apresentações

2018 | Semana de Integração de Artes Visuais – UFRJ – Capacete

2018 | Senzy Viva – Centro Cultural Pequena África

2019 | Apresenta: Seminários de Arte – Escola de Belas Artes, UFRJ

2019 | Workshop: Como se tornar um artista contemporâneo de sucesso na arte contemporânea – EAV Parque Lage

2019 | Roda de conversa com Camilla Braga – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Residência LAVRA

Premiações

2017 | Artista do mês Camilla Braga Artista Contemporânea LTDA

2017 | Menção honrosa pela pesquisa A Arte, a História e o Museu em processo Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ

2019 | Melhor Pesquisa em Artes Visuais Revista Desvio

Publicações

2017 | Mesa de cabeceira Publicação de croquis de jovens artistas da Escola de Belas Artes, UFRJ. Editora: Decult/UFRJ

2018 | Revista Desvio Artigo – Profissão: Artista

Publicações sobre a artista

2017 | Casa Povera

2017 | Catálogo I PEGA, Revista Desvio

2018 | Revista Desvio: Texto 1

2018 | Revista Desvio: Texto 2

2018 | Revista Desvio: Texto 3

2018 | Revista Desvio: Texto 4

2018 | Catálogo revista Performatus

2019 | Revista Performatus ED. 20 ano 7 | N. 20 | ABR. 2019

Projetos

2017 | Contemplada pelo edital 047/2017: Edital de apoio ao evento do estudante (Decult/UFRJ) com o projeto de exposição Saguão de Arte.

 

Design sem nome

 

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte em andamento na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro. Bolsista do projeto “Mapeando Arte e Cultura Visual Periférica”.

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