Crítica semanal Vanessa Tangerini

Museu da Maré: ressignificar e devorar

“A memória é acima de tudo, dizem nossos primeiros, uma poderosa vacina contra a morte e alimento indispensável para a vida. Portanto, quem cuida e guarda a memória, guarda e cuida a vida; e quem não tem memória está morto.” – Subcomandante Marcos EZLN, 2001.

Inaugurado em 2006, o Museu da Maré surge a partir do desejo dos moradores da comunidade em estabelecer o seu lugar de memória e de afirmar a sua identidade. Como afirma a própria instituição, nasceu do desejo de “um lugar de imersão no passado e de olhar para o futuro”. O espaço, além de albergar uma exposição permanente, realiza tarefas de registro, investigação e preservação das histórias da Maré, e também ações culturais e educativas.

O museólogo Mario Chagas (1) aponta como os museus, que durante muito tempo serviram para preservar somente a memória e visão de mundo das classes mais altas e que funcionaram como dispositivos ideológicos do estado e como método disciplinador, passaram por um processo de democratização, ressignificação e de “devoração”, pensada aqui como uma atitude antropofágica. E é nesse panorama em que encontramos o Museu da Maré que com seu “poder devorador” ressignifica a atividade museológica e propõe ver o Rio de Janeiro a partir da perspectiva dessa comunidade.

Buscando uma prática que vai além dos discursos oficiais e limitados, o museu se desliga das narrativas monumentais e se alimenta de relatos que vem de dentro da Maré. É um museu em movimento: assim como a comunidade a qual pertence, o Museu da Maré também está em constante construção. Em construção também está o visitante, quem ao sair do museu talvez já não seja o mesmo.

Sua exposição permanente propõe, ao invés de temáticas tradicionais, “espaços-tempos” que despertam diferentes sensações e perguntas em seus participantes (prefiro usar, nesse caso a palavra participante em lugar de mero espectador). Eles são: tempo da água, tempo da casa, tempo da migração, tempo da resistência, tempo do trabalho, tempo da festa, tempo da feira, tempo da fé, tempo do cotidiano, tempo da criança, tempo do medo e tempo do futuro.

Trata-se de “espaços-tempos” que geram emoções, evocam memórias (coletivas e individuais), causam nostalgia. Mas que também provocam, incitam e incomodam. Geram reflexão no participante e também questionamentos sobre o futuro a ser construído.

 “Hoje foi a 1ª vez que visitei o museu: estava passando e resolvi entrar. Foi uma das melhores experiências que tive nos últimos anos. Incrível, não!!! É bom saber que temos história, cultura, tradição, etc. Não somos números ou censo de pobreza; somos gente. Que bom que há quem saiba disso e nos faça lembrar porque as vezes esquecemos. Obrigado.”

A mensagem acima foi deixada no livro de visitantes do museu no dia 10 de julho de 2006 e é apenas um dos muitos reflexos da importância do museu para a comunidade e da afirmação de uma identidade coletiva. Se o que não tem memória está morto, então a construção da memória é um ato vital. E é por isso que “recordar é viver”, como cantava Toquinho. Favela também é memória e negar-la é negar a sua existência. Porque memória é necessidade: para poder se sentir vivo.

Fonte citada:

(1)CHAGAS, Mario. Museus, memórias e movimentos sociais. Em: Cadernos de Sociomuseologia – 41. 2011. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/48580386.pdf

Outra fonte de consulta:

ABREU, Regina e CHAGAS, Mario. Museu da favela de maré: memórias e narrativas a favor da dignidade social. Revista Musas, IBRAM, 2007.

Imagem: Museu da Maré, Rio de Janeiro, registrado por Tesserae

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação

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