Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

A cor do autor, a política da imagem

Na noite de quarta-feira, 24 de abril, o portal de notícias R7 publicou reportagem sobre uma “ação” promovida pela Faculdade Zumbi dos Palmares, uma instituição privada de ensino superior com sede na cidade de São Paulo. O projeto intitulado Machado de Assis Real consiste numa campanha publicitária de atualização da imagem de autor do escritor nos livros da biblioteca e dos estudantes da instituição, e se comunica com o público externo por meio de um site. Ainda segundo a reportagem, a iniciativa resulta da parceria entre a Faculdade e a agência de publicidade Grey Brasil, na qual todos os alunos da graduação em Publicidade e Propaganda estagiam.

Isso quer dizer que estamos diante de um produto acadêmico ambíguo, na medida em que procura intervir na representação do escritor Machado de Assis feita pelos leitores em geral (e por isso parece uma ação de extensão universitária) ao mesmo tempo em que promove a marca das instituições autoras da “ação”, lançando mão de um ativo hoje fundamental para as empresas privadas – o discurso das redes sociais. O site de divulgação do projeto, além da nova imagem do autor, apresenta hashtag e abaixo-assinado. Ora, uma pesquisa pelo nome do projeto nas bases de dados de revistas acadêmicas Portal de Periódicos CAPES, SciELO e Google Acadêmico não retornou nenhum resultado referente ao projeto Machado de Assis Real, o que faz supor não se tratar de uma pesquisa científica. Por outro lado, a publicação no portal de notícias R7 e o ocultamento da autoria do projeto, sob responsabilidade de nenhum professor mencionado nem pela notícia nem pelo site da Faculdade, faz supor que se trata de uma ação de publicidade encomendada pela instituição de ensino.

A fotografia utilizada no projeto foi publicada em O Álbum, no ano de 1893, e apresenta um Machado maduro, grisalho, com cabeleira e barbas menos crespas e onduladas do que o Machado fotografado três anos antes por Marc Ferrez. Aí está um Machado já autor das Memórias póstumas de Brás Cubas e de Quincas Borba, dos contos de Papéis avulsos e Histórias sem data, e que, diferentemente da fotografia de Marc Ferrez, da capa de A Semana, em 1886, ilustrada com seu retrato ou das suas carte de visite, não encara a lente. Visto por quem o observa abdicando-se de ver quem o observa, o autor se apresenta mirando outro horizonte, indefinido e oblíquo ao leitor da imagem. O projeto Machado de Assis Real, para além da visada positivista de propor o “real” e o “certo” e da ação de marketing que carrega, procura fazer justiça à cultura afro-brasileira ao reimaginar Machado de Assis no contexto das redes sociais, recolorindo o seu retrato em preto e branco.

Por que a cor do autor? A obra de Machado de Assis vem sendo relida considerando-se a cor do autor. A antologia organizada por Eduardo de Assis Duarte, Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo, publicada em 2007, é um bom exemplo desse trabalho de interpretação. Considerar a relação entre a autoria e a obra implica considerar o teor de testemunho da ficção e das artes em geral. Reimaginar as autorias no campo cultural brasileiro, como a curadoria de exposições do MASP vem fazendo exemplarmente, consiste numa crítica da democracia racial, e será preciso ainda pensar por algum tempo o ciclo vicioso entre democracia e racismo, ou entre defesa da democracia e relativização do racismo – entre nós.

(A partir da notícia no site da Faculdade Zumbi dos Palmares, é possível ter acesso aos textos aqui citados: http://www.zumbidospalmares.edu.br/a-acao-machado-de-assis-real-promovida-pela-zumbi-vira-noticia-no-r7-confira/.)

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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