Crítica semanal Ombela Assumpção

ReAntropofagia

ombela 29-04

“Aqui jaz o simulacro Macunaíma, jazem juntos a ideia de povo brasileiro e a antropofagia temperada com bordeaux e pax mongolica.”

Denilson Baniwa

Em sua fala, Denilson Baniwa – artista e curador da exposição ReAntropofagia, junto à Pedro Gradella – declara que “antropofagia agora é o devorar de tudo o que existe sem usar talheres franceses”, aquilo que a utopia modernista não deu conta, diga-se de passagem. O manifesto é visual e nos convoca a repensar quais repertórios foram e ainda são silenciados na história da arte mas que a partir desse momento passam a ser horizontalizados. Com uma saudosa variedade de linguagens e de artistas, a exposição foi aberta no dia 24 de abril no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense.

A coletiva de arte contemporânea, com artistas indígenas brasileiros de múltiplas vivências, configura-se em um contexto de urgência no que diz respeito ao trato com a nossa história de violência, dada tanto pelo apagamento identitário quanto pelo genocídio em massa dos povos originários do Brasil, que infelizmente não ficou só no passado. Imagens que mostram que a multiplicidade de uma arte viva e conectada ao seu tempo trazendo um repertório de artistas (e curador) indígenas em uma exposição onde a vitrine de um modelo expográfico que privilegia o olhar antropológico, não mais impera.

Nesse sentido, a construção de um repertório visual essencialmente decolonial extrapola as camadas teóricas e se materializa na reconquista de outros territórios. Seja na paisagem urbana com graffitis e lambes, ou por meio da pintura, da xilogravura e da escultura, seja no ambiente virtual com colagens digitais postadas no instagram e conteúdo audiovisual no youtube, tudo isso reunido em ReAntropofagia. Uma  exposição que como MIRA!(2013-2014) e Dja Guata Porã (2017-2018) subvertem a ideia de que os povos originários estão congelados em um passado mítico que só é possível visualmente por meio de um resgate da arqueologia. A arte produzida por artistas indígenas está mais viva que nunca, na cidade ou na aldeia, “contra o epistemicídio, contra a necropolítica”, porque tupy or not tupy não é mais a questão.

*As citações transcritas no texto foram retiradas do texto da curadoria e da obra reproduzida acima de Denilson Baniwa.

 

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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