Crítica semanal Gabriela Manfredini

O FIM DA PRIVACIDADE?

“Nós não vivemos uma monumental “crise de confiança”, mas o fim da confiança, a qual se tornou supérflua para o governo. Onde o controle e a transparência reinam, onde o comportamento dos sujeitos é antecipado em tempo real pelo tratamento algorítmico da massa de informações disponíveis sobre eles, não há mais necessidade de confiar neles nem de que eles tenham confiança: basta que eles sejam suficientemente vigiados. Como dizia Lenin, “a confiança é boa; o controle é melhor”.” *

Ao mesmo tempo que a internet nos deu mais liberdade para acessar e publicar notícias, críticas e opiniões em grandes veículos midiáticos, blogs e redes sociais, o governo e corporações conseguem ter acesso a grande parte de nossos dados – e consequentemente de controle. É comprovado que os smartphones escutam nossas conversas através do microfone para mostrar produtos relacionados; tudo em função de negócios e publicidade. Em 2018, o Facebook foi alvo do escândalo de dados com a empresa Cambridge Analytica envolvendo a coleta de informações de até 87 milhões de usuários do Facebook. Recentemente, em março deste ano, um novo escândalo de vazamento de dados para a empresa Amazon. Em abril, a empresa admitiu ter coletado até 1,5 milhão de contatos de e-mail de usuários sem o consentimento deles. Esses são alguns dos muitos casos problemáticos do Facebook envolvendo privacidade, fake news e algoritmos. Alguns casos de câmeras escondidas no Airbnb (serviço online de hospedagem) também viraram notícia desde o ano passado.

Google, Facebook, Apple, Amazon, Android, Skype, Netflix e Microsoft são softwares privados, ou seja, submetem os usuários ao poder de seu proprietário. Entretanto há o movimento de softwares livres fundado pelo americano Richard Stallman que defende o controle e a modificação dos programas pelos usuários oferecendo liberdade e ética. O movimento ainda é ainda incipiente, porém esforços estão sendo feitos para seu incentivo.

Além disso, começaremos a enfrentar problemas de privacidade e ética com relação ao reconhecimento facial e inteligência artificial. Dezoito aeroportos nos EUA já contam com a tecnologia de reconhecimento facial. O objetivo do sistema é oferecer “saída biométrica”, que dá às autoridades uma boa ideia de quem está deixando o país como quem está entrando, e permite que eles identifiquem pessoas que tenham ultrapassado seus vistos. Os críticos argumentam que construir um banco de dados de milhões de fotografias das pessoas é uma ameaça às liberdades civis, pois seria fácil compartilhá-lo com outras agências, transformando-o efetivamente em uma ferramenta de busca para todas as forças da lei.

Nas Olimpíadas do Japão no próximo ano, o reconhecimento facial será usado para identificar todos os credenciados para os jogos, mas ainda não foram divulgadas informações sobre medidas de segurança que serão tomadas para proteger a privacidade dos indivíduos.

O maior desafio no desenvolvimento e aplicação da inteligência artificial é que a grande maioria de programadores são homens de cor branca. Isso é profundamente preocupante quando a influência do setor cresceu drasticamente para afetar desde a contratação e moradia até a justiça criminal e as forças armadas. A tecnologia acabou automatizando preconceitos de seus criadores para um efeito assustador: desvalorizando os currículos das mulheres, perpetuando a discriminação no emprego e na moradia e consagrando práticas de policiamento racista e condenações nas prisões.

* Citação retirada do livro Comitê Invisível

Aos Nossos Amigos: Crise e Insurreição. N-1 Edições, São Paulo. 2015

gabriela

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

 

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