Crítica semanal Daniel Levy de Alvarenga

O futebol e o patrimônio cultural

Nas últimas décadas temos assistido uma crescente valorização dos conhecimentos tradicionais, dos modos de fazer, das festas, dos rituais, das celebrações, enfim, das formas de expressão, dos lugares e espaços que abrigam práticas culturais vinculadas às tradições de diversas comunidades.

Um dos resultados desta valorização é o reconhecimento oficial dos bens culturais de natureza imaterial por parte dos órgãos públicos do patrimônio que, após estudos realizados pelo seu corpo técnico, conferem um “título” a determinada expressão cultural.  No âmbito nacional, o IPHAN atribui o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Na cidade do Rio de Janeiro, é concedido o título de Patrimônio Cultural Carioca.

As principais consequências destes “títulos” são, ou deveriam ser, as denominadas medidas de salvaguarda, ou seja, ações práticas que estimulem a viabilidade e a continuidade do patrimônio cultural imaterial de modo sustentável, proporcionando, na medida do possível, uma melhoria das condições sociais e materiais de transmissão e reprodução da expressão cultural. Isto significa, obviamente, que não basta conferir um “titulo”, pois o mais importante, na verdade, são as medidas de salvaguarda.

Neste sentido, o caso da cidade do Rio de Janeiro é emblemático. A lista dos bens culturais de natureza imaterial reconhecidos pelo Município é extensa. Encontramos nesta lista diversas “expressões culturais” relacionadas ao futebol como, por exemplo, o  Fla x Flu, o “derby” esportivo que foi denominado o “Clássico das Multidões” pelo jornalista Mário Rodrigues Filho.

O reconhecimento como bem de natureza imaterial e a inscrição do Fla-Flu no Livro de Registro das Atividades e Celebrações considerou a “relevância do futebol, além da dimensão do desporto e da prática atlética, mas também como manifestação cultural e social conferindo-lhe caráter antropológico para o melhor entendimento e compreensão da sociedade e da identidade carioca”. Para a Prefeitura, o clássico “mais charmoso do mundo” e que imortalizou diversos jogadores, “é uma celebração que sintetiza a identidade carioca e signo máximo do saudável antagonismo esportivo”.

Esta última justificativa é uma explosão de interrogações: o que é a “identidade carioca”? Uma partida de futebol é capaz de sintetizar esta identidade? E quanto ao “saudável antagonismo”? Pelas informações do Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos, a Força Jovem do Vasco é considerada a torcida mais violenta do Brasil. Em terceiro lugar está Young Flu do Fluminense seguida pelos grupos de torcidas organizadas do Flamengo. O levantamento considera o número de torcedores afastados dos estádios. Desde 2003 até 2017, foram presos 253 torcedores e 486 foram afastados dos estádios por envolvimento em confusões durante as partidas. Em diversos estados brasileiros o Ministério Público propõe o fim das torcidas organizadas como medida para reduzir a violência e aumentar a proteção dos torcedores dentro e no entorno do estádios.

Meu ponto é o seguinte: para que uma determinada expressão cultural seja reconhecida oficialmente e que os recursos públicos possam ser canalizados para projetos representativos da diversidade cultural, são necessários critérios razoáveis e fundamentados. Deve-se evitar a banalização do “título” e, principalmente, o seu uso político. Qual o sentido, por exemplo, em reconhecer os gols do Zico no Maracanã como bem cultural de natureza imaterial?

O importante é que em cada caso concreto seja ponderado o peso que a expressão cultural candidata ao “título” de Patrimônio Cultural Imaterial tem na comunidade, o seu significado histórico e identitário e a efetiva necessidade de atuação do poder público para a sua manutenção na atualidade e transmissão para as futuras gerações.

 

* Foto de Capa: Fla x Flu – Djanira (1975).

 

Daniel Levy

Daniel Levy de Alvarenga  é formado em Direito e em História pela PUC-Rio. Mestre em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), linha de pesquisa “Patrimônio, Ensino de História e Historiografia”. Doutorando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa (UAL), desenvolvendo pesquisas sobre patrimônio cultural material e imaterial.

 

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