Crítica semanal Vanessa Tangerini

Afinal, para que serve a educação?

Em meio ao corte de 30% do orçamento de universidades federais e ao anúncio de um recorte sistemático no investimento em faculdades de humanas, se instaura uma discussão sobre a “rentabilidade” de carreiras como a sociologia e a filosofia.

Já durante o século 12, João de Salisbury advertia a sua desconfiança no formalismo lógico e nas especializações que, segundo ele, visando um projeto imediato e parcial sacrificavam a mais profunda e autentica formação humana integral. O pensador, então, se opunha à educação como aquisição mecânica de um tecnicismo formal.

Durante o século 15, os humanistas também defenderiam uma educação integralmente humana: para eles a educação forjava homens livres, capazes de descobrir novos caminhos ou de criar novas realidades. Tratava-se de uma visão que apontava a uma livre formação do homem, cujo fim seria a sua liberação e a sua potenciação.

Pero Guarino, Vittorino e Alberti, pedagogos do século 15, queriam que o educador se preocupasse, não de condicionar o aluno e adestrar-lo em uma técnica, senão de preparar-lo para a vida; para o exercício não de um ou outro oficio, senão da profissão de homem. Ademais, Alberti acreditava que a formação dos homens se dava somente em contato com outros homens.

Se bem essas reflexões podem ser consideradas antigas por pertencerem a séculos passados e, se bem fizeram parte de outro contexto, trazer-las à nossa atualidade permite que elas voltem a cobrar valor. Afinal, podemos seguir contrapondo as idéias destes pensadores ao projeto contemporâneo de uma educação tecnicista e que busca um ilusório “retorno imediato”.

Muitas destas idéias humanistas estão presentes também no pensamento de Paulo Freire, (só Deus sabe até quando) patrono da educação brasileira. Basta ler algumas de suas propostas para entender o porquê do atual ódio e repúdio instaurado em torno da sua figura. Basta colocar-las ao lado do discurso do atual governo para entender que o desmonte da educação, sobre todo se ela for crítica, é um projeto.

Afinal, como afirmava Paulo Freire: “Seria uma contradição se os opressores não só defendessem, mas praticassem uma educação libertadora”.

Perguntemo-nos mais uma vez: A educação para que “serve”? Para servir, para gerar um retorno imediato? Ou para libertar?

Fonte de pesquisa:

GARIN, Eugenio. A Educação na Europa 1400-1600. 1957.

Imagem de fundo:

Exposição individual de Luis Camnitzer (Museu de Arte. Universidade Nacional da Colômbia). Fotografia por Salvador Lozano.

 

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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