Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Corpo vivo, uma categoria

Nos jornais, timelines, correntes de whatsapp, perguntar-se quais corpos estão inteiros, e quais partidos. Perguntar-se por aqueles que estão de pé, os que estão deitados. Há diferença de cor, perguntaria. Os que estão abertos, os que estão calados. A genitália é diferente. Pergunta. A idade. Pergunta: onde moram, na pintura. Bandeira, desenho, capa do livro.

É possível que a justiça se pareça com a imagem do corpo muscular da mulher que viralizou recentemente pois não havíamos imaginado coletivamente o mamilo feminino sob a pele. O homem vitruviano, de Da Vinci: corpo inscrito num círculo e num quadrado mostra, no centro, um pênis. Nada mais injusto. E o corpo de pé, o pau no centro do quadrado, o umbigo no centro do círculo. O terreno e o mundo.

Em 1962, Clarice Lispector publicou na revista Senhor uma crônica em memória de Mineirinho, assassinado com 13 tiros pela polícia militar carioca. Nela clama por outra justiça, não a sonsa, de que precisamos para sobreviver ao horror, mas a doida, a que recorremos para barrar a possibilidade do horror. A justiça doida que a faz defender um facínora, não por crimes que ele cometera, sim pelos 13 tiros que destróem a vida de qualquer um. Havia um grama de radium em Mineirinho, há radioatividade no vivo.

Os corpos parecem crucificados, em pé ou deitados. Na bandeira de Hélio, seja marginal, seja herói. Também ali a memória do crucificado. Na pintura de Pedro Américo para Tiradentes, o corpo esquartejado sobre palanque de madeira, ao pé da cruz. A memória do corpo crucificado. Vida, no Brasil, não se consolidou como categoria política. Fazer cultura nessa ilha segue significando inventar essa categoria.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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