Crítica semanal Ombela Assumpção

Black art! Black money?

I wanted to be a star, not a gallery mascot.”

Jean-Michel Basquiat

Olhar para a pequena mostra da coleção (amealhada entre os anos 70 e 80) do multimilionário Yosef Mugrabi – exposta entre os dias 12 de outubro de 2018 e 7 de janeiro de 2019 no CCBB do Rio de Janeiro que completa sua turnê por quatro capitais brasileiras – , pode nos dar pistas do estrondoso sucesso de Basquiat mesmo em vida e uma pequena mostra das engrenagens visíveis do mercado de arte. Mugrabi é o maior colecionador de Andy Warhol no mundo, não é à toa que sua nada humilde coleção de obras de arte comporta um acervo robusto de mais de 800 obras do maior expoente da Pop Arte, nome muito presente na biografia de Basquiat. O empréstimo das obras foi negociado em nada mais nada menos que 1,5 milhões de dólares o valor equivalente a 5 milhões de reais.

Fosse apostar na crítica que se fazia a obra de Basquiat quando ele ainda era vivo, talvez nunca o tivéssemos conhecido. Sua produção foi reconhecida primeiramente pelos colecionadores, a crítica e os próprios historiadores da arte se mantiveram desconfiados fato que pode ter contribuído para a privatização da obra de Basquiat. Recentemente um quadro de Basquiat foi arrematado pela casa de leilões Sotheby’s por 80 milhões. No que concerne o reconhecimento desse artista Anne Cauquelin elucida de modo preciso o papel do colecionador no circuito de arte como um “aristocrata esclarecido” que atua como vitrine por estar em evidencia social e ao mesmo tempo como guardião de um tesouro supostamente público.

Curioso notar nesses casos como o circuito de arte absorve certas plásticas que desembocam em distorções ideológicas por intermédio do capital. “O negro é o protagonista da maioria das minhas pinturas”, disse Basquiat. A negritude é posta em discussão em sua obra juntamente aos seus sentidos e vivências, o que não significa o lucro financeiro da comunidade negra com sua produção mas em uma dimensão simbólica. Mais um dos muitos abismos entre corpo, alma e espírito da arte preta que o olhar ocidentalizado dificilmente consegue abarcar. O jovem foi considerado expoente de um movimento desacreditado por críticos da época: o neoexpressionismo. Descrito como um mero fenômeno espetacular apelativo que tinha por objetivo vender facilmente, um desses críticos é Hal Foster. O próprio curador declarou na palestra da exposição em São Paulo, também não ter sido um grande admirador da obra de Basquiat e ter precisado olhar para a mesma mais de duas vezes para apreender seu valor.

Em um contexto internacional a obra do artista Jean-Michel Basquiat está sendo revista, não só pela historiografia da arte, mas também em exposições retrospectivas que tem alcançado os públicos mais diversos. Das diferentes linguagens e suportes explorados pelo artista, dentre eles pintura, gravura, desenho e cerâmica, podemos ter uma pequena dimensão da grandeza caótica de sua obra e do quão atual ela se encontra apesar de não vivenciarmos a realidade de uma Nova York falida dos anos 80, fato que demonstra a pertinência do conteúdo visual produzido. Em linhas gerais, artistas pretos tem se projetado no cenário mundial da arte contemporânea, não apenas por uma demanda por representatividade mas por colocar questões urgentes que evidenciam a situação da população preta. O mercado é frio e categórico ao absorver posturas em torno de onde gira o capital, nossas crenças nem sempre convergem com aquilo que está por trás do que podemos ver ou ter acesso nos multiversos do circuito de arte. É necessário refletir quais os verdadeiros interesses do mercado de arte quando o assunto é a inserção de narrativas que nunca foram de seu interesse e no final de tudo quem saí ganhando com isso.

 

 

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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