Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Mês da visibilidade menstrual

sangue sobre água

Entre tantas medidas desastrosas, o governo segue com suas pautas misóginas e antifeministas. Desde a nomeação da pastora evangélica Damares Alves como ministra da “Mulher, da Família e dos Direitos Humanos”, importantes conquistas alcançadas pelas mulheres estão sofrendo retrocessos. A disseminação de notícias falsas, estereótipos e discursos de ódio gera uma incompreensão sem precedentes sobre o que, de fato, é a agenda feminista no Brasil e sobre quem são as feministas. O assassinato de Marielle Franco, entre várias outras dimensões, é também uma lembrança diária de que as mulheres que lutam por seus diretos (e, inclusive, aquelas que não se identificam com o movimento) estão sob ameaça constante. Exige esforço para que as reivindicações feministas não sejam sufocadas em meio ao desmantelamento político do país. Afinal, as mulheres (e todo o complexo grupo de diversidade de pessoas que essa alcunha abrange) seguem sendo as principais vítimas do sistema capitalista patriarcal, em especial, daqueles de extrema direita.

Ainda pouca gente sabe, mas em maio celebramos o mês da visibilidade menstrual: um movimento mundial concebido para evidenciar um tema tabu que é o sangue menstrual. Comemora-se no mês das mães, porque a menstruação é o movimento cíclico que permite a maternidade. Além do mais, em contextos opressores é fundamental pensar na renovação que os ciclos trazem e investir nas redes de autocuidado. Aproveitando o ensejo, recupero um texto que escrevi em 2016 para a exposição individual de Janaína Morais, “Meu corpo, meu sangue”, na qual a artista apresentou uma série de fotografias de sangue menstrual. Segue na íntegra:

Vivemos em um paradigma que preconiza a origem das desigualdades como ontológica. Este modus operandi justifica desigualdade com biologia e instaura a noção de “sexo” como a única forma de existir em sociedade. Ao nos obrigar a olhar para e lidar com a menstruação, “Meu corpo, Meu sangue” refuta opressão com beleza, doença com saúde, vergonha com poder, nojo com prazer. O poder emancipatório que existe no autoconhecimento é da mesma natureza do poder transformador que existe na arte. A arte nos toca. Nós temos que nos tocar. E, com um toque, tudo muda.

Exibindo aquilo que “deveríamos” jogar fora, a exposição dá descarga na normatização e sanitização dos corpos. Não dá mais para viver assim. Corpos menstruantes são corpos transformadores. Mentes que sagram são mentes que transbordam. Neste sentido, “Meu corpo, Meu sangue” é mais que uma exposição fotográfica. É um processo completo que vai do criar ao protestar, do fotografar ao denunciar, do conhecer ao transformar, do perguntar ao compartilhar, do acolher ao empoderar, do feminino ao feminismo.

Objetos cotidianos são usados como instrumentos para a realização do fazer artístico e do questionamento do gesto social: coletar o sangue e não o descartar. O que fazer com ele? O que ele faz (ou pode fazer) comigo/por mim? A produção artística de Janaína Morais é, portanto, cerimônia, ritual, processo, imersão, enfrentamento. Um bidê (louça), um prato com leite, um copo com água, um vaso sanitário, um coletor menstrual. Estes são os elementos narrativos da expografia. São coisas que a artista transforma em receptáculos de (1) questionamento, (2) autoconhecimento, (3) empoderamento. Nesta ordem, porque uma coisa leva à outra initerruptamente. Como um percurso fluido, impossível de ser contido, a exposição nos conduz por um circuito reflexivo e nos faz desviar do destino-descarte.

Créditos das imagens: Janaína Morais

 

ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”

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