Crítica semanal Vanessa Tangerini

Bienais, mercado e opacidades

Este sábado inaugura a edição número 58 da Bienal mais antiga da história, e também uma das mais prestigiosas, a Bienal de Veneza (ativa desde 1893). As bienais, assim como as feiras de arte, identificam as cidades com a arte contemporânea, favorecendo o turismo e a internacionalização de artistas. Poderíamos analisar-la como um evento que, além de ferramenta, participa ativamente da lógica do mercado de arte contemporânea, ultrapassando a categoria de indústria cultural.

Então, as bienais estariam competindo com as feiras de arte? Alguns críticos afirmariam que sim. Porém acredito que, mais que competir, ambas atuam em conjunto em função de uma lógica e objetivos de mercado.

Nesse aspecto, o curador e crítico Simon Sheikh realiza uma análise das bienais como uma indústria florescente e afirma que, contudo, o seu caráter como tal raramente é discutido; sendo quase sempre consideradas como modelos de exibição e geradoras de discurso. No entanto, é fácil perceber que uma bienal gera uma marca não só às cidades, mas também aos artistas, afinal ser um artista “bienalizado” gera “prestigio, reconhecimento e comerciabilidade”.

Com freqüência, os trabalhos expostos em uma bienal já estão vendidos ou, pelo menos, se vendem durante a exposição. Do mesmo modo, como aponta Sheikh, muitas feiras se realizam nas proximidades de uma bienal ou em coordenação com a mesma, como é o caso da Art Basel que ocorre logo após a Bienal de Veneza. O que ele destaca é que, além de tudo, essas conexões nunca são completamente reveladas ou compreendidas; e que existe uma ausência quase completa de reportagens críticas sobre as conexões estéticas e econômicas existentes entre a atividade curatorial e a mercantil, bienal e feira. Ele também defende a bienal como parte da indústria da experiência, afinal nela se constitui uma mercancia através da experiência da cidade e da exposição, mais que pelas obras de arte individualmente.

Esse tipo de análises revela uma trama de redes complexas e contraditórias próprias do opaco mercado contemporâneo da arte. Bienal e feira são regidas por leis mercantis de uma mesma natureza comercial. O que resta é seguir perguntando qual o lugar que ocupa a arte nestes eventos, e quais são os principais objetivos em realizar uma bienal.

Imagem de fundo: Wallpaper a partir de uma obra de Andy Warhol.

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

 

 

 

 

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