Crítica semanal Gabriela Manfredini

TRABALHANDO DIRETAMENTE COM O MUNDO

“As formas de interação mais simples são representadas pelo conhecimento superficial e pelos encontros casuais e fortuitos no ponto de ônibus, na locadora de vídeo ou na fila do supermercado, ocasiões em que os vizinhos podem se cumprimentar e trocar algumas frases. Seguem-se formas duradouras de contato que podem estar vinculados à auto-ajuda (apoio emocional mútuo no caso de problemas pessoais, revezamento no cuidado de crianças etc.) ou à ocupação do tempo livre comum (visitas domiciliares recíprocas etc.).” Sérgio Costa

Você está num hospital. Você anda pelos corredores. Você percebe ao lado do radiador, uma foto de um passeio que ele fez por Machu Picchu. Ao lado da cadeira da recepção, uma foto dela em Stonehenge. Neste momento, você percebe que alguns objetos que estão ali, em algum momento estiveram em lugares com potencial energético de cura.

Depois, passeando pela Union Square em Nova Iorque, você se depara com 12 cartazes enormes com textos de fundo vermelho e amarelo. Você pensa que se trata de publicidade do Mc Donald’s, mas quando começa a ler percebe que se tratam de declarações sobre questões sociais e políticas atuais.

Continuando o caminho pra casa, você lê “Protect me from what I want” (Proteja-me do que eu quero) em um enorme letreiro na Times Square. Quando entra no metrô, vê alguns jovens usando camisetas com uma lista de verdades óbvias em ordem alfabética.

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No passeio fictício acima, cito três trabalhos artísticos que trabalham diretamente com o mundo, em espaços públicos.

Brad Downey foi comissionado para fazer um trabalho no Hospital Södertälje, na Suécia. “Eu experimentei todas as dificuldades de levar um radiador de 18 quilos para o Machu Picchu” relembra o artista sobre sua intenção de transformar os objetos do hospital em amuletos que podem ajudar os pacientes.

Os cartazes na Union Square são do Group Material, um grupo que foi fundado como uma resposta construtiva às formas insatisfatórias em que a arte era concebida, produzida e distribuída. Depois de dificuldades para manter o espaço de galeria do grupo, eles decidiram trabalhar em áreas públicas. Em 1985, convidados para participar da Whitney Biennial, criaram “Americana”, uma obra que questiona o que é significativamente ausente e excluído por atitudes curatoriais. Incluindo arte populista, obras de artistas negros, práticas feministas e arte abertamente política, o trabalho segue atual até os dias de hoje.

Os letreiros e camisetas são trabalhos da série “Truisms” (verdades óbvias) de Jenny Holzer. Para a artista, o impacto do seu trabalho é maior quando acontece no cotidiano: “Tenho mostrado coisas em galerias e museus nos últimos anos, mas minhas atividades e interesses principais ainda são o trabalho público. Desde o começo, minha obra vem sendo planejada para ser encontrada por acaso no curso cotidiano de uma pessoa. Eu acredito que existe um grande impacto quando alguém está simplesmente caminhando, sem pensar em nada particular, e então acha esses enunciados pouco usuais, seja em um pôster ou numa sinalização.”

A arte disponibilizada em espaços públicos é um meio de ressaltar a importância das relações humanas e da empatia. É uma forma de interação simples e direta com pessoas que talvez não estariam interessadas em entrar numa galeria de arte ou museu. Portanto, muitas vezes, abrange um público maior e permeia o cotidiano das pessoas.

 

gabriela

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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