Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Mar Baldio

Os seis anos que separam “As horas não passam para as pessoas felizes”, primeira individual de Jonas Arrabal em 2013, de “Mar Baldio” revelam aspectos recorrentes e, portanto, fundamentais da trajetória do artista. Eles dizem respeito à consistência de sua pesquisa, tanto em relação aos materiais que explora à exaustão, como em relação aos conceitos que atravessam suas criações. Desde lá, o sal já estava presente, assim como a oposição ou o diálogo entre materiais orgânicos e industriais: nos primeiros há vida e transformação (sal, água, areia, calor, luz, saliva, terra); nos outros, há vazio e imobilidade (tijolo, azulejo, ferro, concreto).  A investigação dos conceitos de reinvenção memorial e biografia também já estava ali: o mar, que trouxe seus antepassados do Japão para o porto de Santos e depois para Cabo Frio, continua sendo uma fonte oceânica de escavações especulativas.

No entanto, de lá para cá, acontece uma mudança no paradigma dimensional de suas obras. Até então, o artista trabalhava com um pensamento espacial grandiloquente: a maioria de seus trabalhos estavam conectados aos espaços nos quais eram apresentados e tinham uma escala considerável. Em outras palavras, sua produção tinha caráter majoritariamente instalativo e site-specific. O que faz desta exposição, a primeira vez em que Jonas apresenta séries objetuais. A redução da escala, o jogo entre bidimensional e tridimensional, a possibilidade de ser transportável, durável, “pendurável”, a decisão sobre a cor, o peso, a repetição que jamais produz resultados iguais… Nova onda.

A exposição nasce com o vídeo homônimo “Mar Baldio”. Realizado e lançado em Hong Kong no ano passado, a obra (que, como de costume, é acompanhada de um texto) será apresentada pela primeira vez no Brasil. Jonas vai até a beira do mar e retira água com um balde. Uma ação repetida ad infinutum: o trabalho interminável de esvaziar o mar, como uma meditação para esvaziar a mente. Transparece também a noção de deslocamento, que é central na pesquisa do artista. Em trabalhos anteriores, ele já deslocou mais de uma tonelada de água da Lagoa de Araruama até Curitiba e transportou água de diferentes praias para dentro de espaços expositivos.  Mas assim como a casa que a família Arrabal Aragutti nunca construiu, Jonas nunca vai contemplar o mar baldio. Contudo, fica o gesto poético, a intenção, o sonho, cristalizados e esbranquiçados. Propõe-se pensar como os desaparecimentos, abandonos e esvaziamentos resinificam os locais, as pessoas e as tradições.

Mar Baldio
Vídeo “Mar Baldio”, 2018. Crédito: Jonas Arrabal

Transportar a água do mar só para vê-la secar não é uma operação realizada exclusivamente pelo artista. Familiares e amigos, quando viajam, estocam águas salgadas mundo a fora e presenteiam Jonas. É assim que a série “Mar de Cabeceira” é realizada. O artista deposita a água salgada em caixas de acrílico e deixa secar naturalmente. Com a evaporação, tornam-se evidentes os cristais de sal, antes diluídos e invisíveis a olho nu. A salinidade muda de lugar para lugar e a imagem final impressa sobre o acrílico nunca será igual. No fundo da caixa, o artista opta por uma peça com cor. Essa escolha se dá a partir do local em que a água foi recolhida, numa tentativa de capturar aquela paisagem.

O sal marinho é um extrato geológico que Jonas interpreta como acúmulos de memória. Sendo assim, o sal desenha uma cartografia na superfície do acrílico que, junto à cor, registra um lugar e uma lembrança. O Mar Vermelho, o Mar Morto, a paria de Jovi no Pacífico, o Cabo da Boa Esperança na África do Sul… Todos os integrantes da série “Mar de Cabeceira” são mapas afetivos submersos em sal. Chama atenção o acrílico “Great Salt Lake, Utah, Dark Pink”, que inevitavelmente nos remete a “Spiral Jett” (1970) de Robert Smithson, obra icônica da land art (arte da terra, da paisagem): uma espiral gigante feita de pedras basálticas e terra que avança sobre as águas salgadas e cor-de-rosa do grande lago em Utah, nos Estados Unidos.

“Ananda Beach Sinai, Mar Vermelho, Light Red (da série Mar de Cabeceira), 2018. Foto: Rafael Adorján.

 

Já os objetos da série inédita “O que resta” são feitos de sal e cimento. Sedimento, erosão, corrosão, escavação, fissura, infiltração, destaque, relevo, camada: ainda que o material seja industrial, as obras se apresentam como formas orgânicas que se expandam horizontalmente nas paredes e verticalmente a partir do chão da galeria. A ideia de que a natureza é artificio e de que não é possível separar o natural do artificial (natureza e cultura) permeia um fazer formal baseado na experimentação com a combinação de materiais inusitados.

Enquanto “Mar de Cabeceira” usa a secagem e a estocagem da água que se transforma em sal cristalino como um elemento estético essencial, “O que resta” enfatiza as mudanças do estado químico do sal e do estado físico do cimento (do líquido para o sólido, do maleável para o indestrutível). Mas em ambos os casos, as obras ganham corpo através de sistemas naturais, de modo que, se há uma fórmula para produzi-los, há também a imprevisibilidade de sua forma final: o trabalho trabalha. Daí suas aproximações das faixas geográficas, geológicas e marítimas, registrando paisagens, desertos e oceanos, bem como os planos temporais do passado e do futuro.

Em 1974, o crítico norte-americano Jack Burnham publicou “Great Western Salt Works”, uma coleção de ensaios sobre arte pós-formalista. Na sua breve introdução, o crítico faz uma analogia curiosa: “a arte é o sal do filósofo”. Uma alusão, um tanto vaga, ao uso do sal na alquimia como um elemento que transmuta os metais básicos em ouro, unindo opostos. O crítico desenvolveu um complexo sistema esquemático para analisar trabalhos que lidavam com elementos naturais (água, fogo, terra, água e éter). Mas por ora, basta a constatação de que o sal é um meio de transformação. Na poética de Jonas Arrabal importa a obra em relação ao tempo, a transição dos materiais e as ações sem começo nem fim. Interessa o desaparecimento contínuo e a impermanência. Alguma coisa sempre precisa desaparecer para que outra surja.

ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: