Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Um postal para Zbigniew Herbert

Recentemente circulou na timeline das minhas redes sociais um edital para publicação de poemas que trazia uma regra para o tamanho dos textos a serem enviados. Era preciso que os poemas apresentassem até no máximo cerca de 20 versos para que coubessem numa postagem de Instagram. Tratava-se, então, não apenas de uma restrição vertical para o poema, mas também de uma restrição horizontal, na medida em que se subentendia que cada verso não devia se estender tanto ao ponto de ocupar mais de uma linha da página virtual onde o poema seria publicado.
Se a postagem numa rede social específica, no caso deste edital, funcionou como espécie de paradigma para a forma do poema, antecedendo-a, em outros casos a prática da postagem em diversas redes sociais, mas principalmente no Facebook, tem alimentado e transformado algumas poéticas contemporâneas. Os poemas escritos diretamente na timeline de Tarso de Melo, publicados em Íntimo desabrigo, respondem, como os “postemas” de Alberto Pucheu, publicados em Para que poetas em tempos de terrorismos?, a notícias ou debates que ocupam os “trending topics” das timelines, ao menos as desses poetas. A apropriação de fragmentos de postagens ou de conversas privadas rumo ao poema longo, no Livro das postagens, de Carlito Azevedo, ou mesmo a autoirônica representação de si, algo zombeteira, algo performática, nos poemas de Retrato com erros, de Eucanaã Ferraz, são outros exemplos do influxo das postagens nas redes sociais operando sobre formas e temas do poema contemporâneo.
Outro exemplo é o dos poemas de Ismar Tirelli Neto em Os postais catastróficos, livro cujo título pode soar, a confiar no jogo de linguagem, como figuração para o textão de Facebook. Assim, a diferença entre a postagem e o postal reside numa ética da dor: “Conta-se que o poeta americano Wallace Stevens costumava dizer  que o postal era a forma ideal de correspondência, análoga ao soneto em poesia.
Segundo ele, o postal, o formato postal, possibilitava o envio mútuo de sinais sem causar nenhuma dor desnecessária. Conta-se que Stevens dividia a humanidade em dois tipos de pessoas: as que nos perturbam com cartas e as que têm o bom senso de não o fazer. Busco avaliar que dores são necessárias, que dores são desnecessárias”, assim começa, ainda na orelha, o livro de Ismar Tirelli.
Os formatos padronizados do cartão-postal, como os de uma postagem no Instagram, e o envio endereçado mas desinteressado de uma resposta, espécie de correspondência solo, ainda mais associados a um recuo no tempo histórico, ao offline século 20, tornam o cartão-postal um gênero discursivo que, pondo em tensão a postagem, revê também o poema, ou pelo menos esse poema-postal postável nas redes sociais. Wislawa Szymborska, a poeta polonesa que tem sido lida pelo Brasil online, postava, via correio, para amigos e familiares, séries de cartões-postais produzidos a partir de colagens de texto e imagem, a exemplo desse em que aparece um homem musculoso, talvez, por sua pose, fisiculturista, sobre o qual se lê, em polonês: “Ao pronunciar uma palavra, usamos 72 músculos”.
O susto dessa imagem, silenciosa, projetando um corpo inteiro de músculos para dentro da boca, para o entorno da boca, para a garganta e o rosto, foi enviado por Szymborska para o também poeta Zbigniew Herbert. Ao postar uma palavra, usamos incontáveis celulares, tablets, computadores. A medida, no entanto, do corpo é definida pelos 72 músculos, a dor necessária para se falar uma, apenas uma palavra.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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