Crítica semanal Ombela Assumpção

And the Oscar goes to… Black Money

“Uma estética Afrocentrica não imploraria questões de liberdade, ela criaria e estabeleceria a liberdade e idenficaria seu próprio público.”

Molefi Kete Asante

 

Após quatro anos consecutivos de queda na audiência, tendo o ano passado registrado a pior marca da história da transmissão da cerimônia, bastou apostar no tema do momento para um aumento de 12% dos telespectadores. Escalada essa que em números significou o retorno ou adesão do programa por mais de 3 milhões de estadunidenses, o episódio aparentemente resulta da máscara politizada que a Academia precisou vestir por força do capital.

Na manhã seguinte a premiação, não por acaso, entre as manchetes mais recorrentes lá estava a pauta racial. Cheque mate! O enaltecimento da narrativa de respeito a diversidade, a conquista por representatividade negra em um espaço majoritariamente branco e a viralização do momento em que Spike Lee comemora de forma efusiva o prêmio de melhor roteiro adaptado, desenharam a imagem perfeita que a instituição precisava para levantar a moral. Mas… o que é que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Califórnia sai ganhando ao premiar cineastas e atores negros?

O tokenismo é um bom e velho amigo das instituições brancas nos Estados Unidos, desde a década de 50 quando eclodiu o histórico Movimento pelos direitos civis essa prática foi capaz de ajudar a controlar a situação de descontentamento e tranquilizar uma parcela da população. Não é à toa que o modelo de representatividade proposto tanto por “Pantera Negra”, longa baseado nos quadrinhos de Jacob Kurtzberg e Stan Lee, quanto por “Infiltrado na Klan” está investido de um ar revolucionário que logo foi capaz de seduzir a juventude preta e gerar uma falsa sensação conquista de voz em espaços ainda predominantemente brancos. Sem citar o escolhido como melhor filme “Green Book: O Guia” que além de distorcer a história da vida de um homem negro, o músico Donald Walbridge Shirley, ainda trás a desagradável narrativa do white savior temperado de um racismo quase caricato.

Desmistificar é a lei. A temática racial não deveria ser inscrita como a protagonista da 91º edição do Oscar, a branquitude também precisa ser racializada. Dentro do sistema de supremacia branca, o qual vivemos, a produção e a propagação de imagens atua como uma poderosa mídia para a internalização de ícones da cultura dominante. Ícones euroferenciados que operam a nível subliminar como armas de controle para a disfunção da autoimagem de povos não-brancos.

Os produtos visuais gerados por Hollywood, mesmo os mais ingênuos filmes, não estão ideologicamente isentos de serem racializados pois antes de qualquer coisa servem não apenas como ferramentas para a legitimação de um discurso mas para a interiorização de um modus operandi. Por trás de toda esse “ato revolucionário” farsesco  de desembolsar 7 estatuetas douradas para artistas negros, encobre-se o processo de rotina do sistema onde a assimilação do discurso da militância garante o perfeito funcionamento de suas engrenagens.

 

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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