Crítica semanal Daniel Levy de Alvarenga

As novas demolições

O que me atraiu para o campo do Patrimônio foram as demolições.

O tema é muito desafiador e sempre atual, principalmente no Rio de Janeiro, onde vivemos uma luta constante contra o esquecimento numa cidade cheia de desmandos e insensível com relação ao seu patrimônio material. No processo desenfreado de urbanização da cidade, diversos prédios e construções de relevância histórica foram demolidos para dar lugar a ruas, avenidas, praças e estacionamentos. Os exemplos são múltiplos. O Morro do Castelo, considerado berço do Rio de Janeiro e situado na região que hoje liga a Cinelândia ao Museu Histórico, foi arrasado no início do século XX e desapareceu completamente da paisagem carioca, sob o pretexto de “arejar” o centro da cidade. Ali estavam o Colégio dos Jesuítas, o Seminário de São José, o Observatório, a antiga Fortaleza, a cadeia e o calabouço. Atualmente resta apenas um pequeno trecho da Ladeira da Misericórdia, a primeira via pública da cidade, que ainda guarda sua calçada original, feita de pé de moleque. Durante a construção da Avenida Presidente Vargas, que liga a zona norte ao centro, foram demolidos diversos prédios tais como o Paço Municipal e a Igreja em estilo barroco de São Pedro dos Clérigos, construída em 1733, que havia sido tombada pelo IPHAN e foi simplesmente “destombada” pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas.

Em virtude da realização de grandes eventos na cidade, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a questão da demolição de prédios públicos voltou para o debate. A área no entorno do estádio do Maracanã foi objeto de grande polêmica. Imóveis como o antigo Museu do Índio (atual Aldeia Maracanã), construído em 1862, a Escola Municipal Friedenreich, o Estádio de Atletismo Célio de Barros e o Parque Aquático Julio Delamare, todos vizinhos ao estádio, foram  constantemente ameaçados de irem ao chão.

Já no campo da memória, a demolição é frequentemente relacionada ao perigo do esquecimento, ao risco de desaparecimento ou a possível perda de identidade e cultura. Neste aspecto, estamos presenciando um período de novas demolições. Não de prédios (por enquanto), mas das conquistas sociais, culturais, ambientais e políticas. Ao que parece, as recentes manifestações indicam que saímos da inércia e que a resistência tem como ganhar mais fôlego. Vamos em frente!

 

 

Daniel Levy

Daniel Levy de Alvarenga  é formado em Direito e em História pela PUC-Rio. Mestre em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), linha de pesquisa “Patrimônio, Ensino de História e Historiografia”. Doutorando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa (UAL), desenvolvendo pesquisas sobre patrimônio cultural material e imaterial.

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