Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Desígnio Desenho

A exposição Desígnio Desenho é composta por sete obras em um arco temporal que vai de 2010, iniciando com “Camadas”, até a série inédita “Iperana”, concluída recentemente. A carreira de Nena Balthar é muito mais longa e profícua, porém a oportunidade de reunir uma década de trabalho, há de ser devidamente celebrada. E, sendo assim, o título da exposição não poderia ser mais apropriado: o desenho é, inegavelmente, o desígnio dessa artista. A técnica em que as obras são apresentadas (vídeo, fotografia, instalação, performance ou papel) não deve enganar: “é tudo desenho”. Inclusive, este é o nome de uma de suas individuais, realizada em 2011. O desenho é seu propósito, vontade, destino. Por conseguinte, sua prática artística é uma experiência corporal, espacial e temporal: Nena desenha quando escreve, quando mergulha, quando fotografa… Se “é tudo superfície”, qual a diferença entre o papel e a paisagem?

Não por acaso, a exposição começa com “Perímetro na Praça” (2015), performance realizada, justamente, em Nova Friburgo. Diante do olhar alheio, Nena percorre toda a circunferência do local, demarcando seu perímetro com um rolo de papel. A praça se distingue de outros espaços urbanos (que são expansões acidentais, desorganizadas, orgânicas das cidades) pela sua organização espacial e intencionalidade do seu desenho: a praça é pensada para ser uma demarcação do vazio em meio à malha urbana se configurando como o lugar intencional do encontro. A performance destaca esse perímetro, fazendo imergir noções socioespaciais e um tensionamento entre o projeto urbanístico (desenho técnico em escala) e o uso público do espaço demarcado (o desenho performático do corpo que percorre o perímetro). A ação ocorreu no âmbito de uma manifestação artística contra a retirada das árvores da praça.

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Nena Balthar, Perímetro na Praça. Foto: Lucia Vignoli

Já “Camadas” é um desenho instalativo. A artista faz linhas verticais em grafite em toda a extensão da parede. As linhas são da amplitude que os braços de Nena alcançam e são feitas repetidamente até que o corpo chegue à exaustão. O registro em vídeo desta ação é projetado sobre o desenho com certo deslocamento, formando um ângulo com a parede lateral (que não foi desenhada). Assim, ela torna o desenhar uma ação visível, tão importante quanto o seu resultado: a coreografia do gesto é indissociável do desenho que se forma. Sendo assim e de certa maneira, a artista subverte o que diz Derrida em Pensar em não ver: escritos sobre as artes do visível (2012): “em todo desenho digno desse nome, naquilo que faz o traçamento de um desenho, um movimento resta absolutamente secreto, isto é, separado (se cernere, secretum), irredutível à visibilidade diurna”.

Já “Camadas” é um desenho instalativo. A artista faz linhas verticais em grafite em toda a extensão da parede. As linhas são da amplitude que os braços de Nena alcançam e são feitas repetidamente até que o corpo chegue à exaustão. O registro em vídeo desta ação é projetado sobre o desenho com certo deslocamento, formando um ângulo com a parede lateral (que não foi desenhada). Assim, ela torna o desenhar uma ação visível, tão importante quanto o seu resultado: a coreografia do gesto é indissociável do desenho que se forma. Sendo assim e de certa maneira, a artista subverte o que diz Derrida em Pensar em não ver: escritos sobre as artes do visível (2012): “em todo desenho digno desse nome, naquilo que faz o traçamento de um desenho, um movimento resta absolutamente secreto, isto é, separado (se cernere, secretum), irredutível à visibilidade diurna”.

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Nena Balthar, Camadas

Por sua vez, a série “Iperana” é composta por 12 desenhos em papel. Iperana é uma árvore, cujo nome em tupi-guarani significa literalmente: “semelhante ao ipê”. Nena recolheu alguns de seus frutos, que mais se parecem sementes, em uma viagem à Amazônia e integrou o material orgânico à sua prática de desenho. Assim, o fruto é usado sob o papel como molde, carimbo, “carbono”, registrando sua forma, peso e textura. Dessa maneira, a dimensão de “semelhança” que a árvore carrega na etimologia de seu nome é ampliada: aquilo que se vê nos desenhos é semelhante àquilo que se vê na natureza sem que haja qualquer intenção e/ou resultado figurativo ou paisagístico.

Não obstante, a partir desta série, é possível destacar um conceito recorrente na produção de Nena: a exploração da linha do horizonte. Ela não o faz do ponto de vista técnico para a manutenção da perspectiva clássica; pelo contrário: a linha do horizonte é tomada enquanto pensamento criador de uma percepção poética diante das imagens do mundo – é para onde o corpo avança. Por outro lado, os desenhos de “Iperana” trazem um dado inusitado: o uso da cor. Majoritariamente trabalhando com o preto do grafite e branco das superfícies, a artista utiliza, ainda que pontualmente, o vermelho. A cor tem certo efeito de sobreposição, apontando para as camadas e relevos dos trabalhos.

Ainda refletindo sobre o preto e o branco, “Porção escura” (2012) é um livro de artista apresentado sobre uma mesa que aborda conceitualmente a transição do claro para o escuro. O trabalho só se realiza a partir da manipulação do público: o gesto de folhear as páginas permite a criação de novas composições à medida que se vai escurecendo o branco e clareando o preto, num jogo entre esvaziamento e totalidade. Isto posto, o público consegue compartilhar com a artista a experiência da criação do desenho.

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Nena Balthar, Porção Escura. Foto: Wilton Montenegro

A questão do horizonte aparece também nas fotografias que compõem “Linha D’água” (2015) e no vídeo “Desenho.Modo.Águas” (2012-2019). Aqui, toma-se os braços pelas mãos: são eles que desenham, riscam, abrem a paisagem. A ação performática nos convida a assumir o ponto-de-vista da nadadora em que uma “linha ondulada” e distorcida separa o horizonte terreno do aquático. O som da respiração e o baralho da água ampliam a dimensão sensorial deste desenho cartográfico. Portanto, é possível pensar que Nena opera também com a noção contemporânea de desenho no campo ampliado.

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Nena Balthar, Linha D’água

A exposição se encerra com “Vocábulo Desenho” (2013), obra na qual a artista desenha o texto “Operando Gestos” de Roberto Corrêa em uma longuíssima extensão de papel. Pensar o texto como desenho é compreendê-lo antes do processo racional, lógico (que é marcado por um modelo logocêntrico e fonocêntrico). Assim, o desenho do texto é aquilo que não se pode prever: é a experiência do gesto enquanto ele se dá. Ao final da ação, persiste o desenho incorporado de uma subjetividade do corpo e de uma ampla percepção formal. Dessa maneira, a proposição da artista vai de encontro ao famoso comentário de Richard Serra: “qualquer coisa que você possa projetar como expressiva em termos de desenho – ideias, metáforas, emoções, estruturas de linguagem – resulta do ato de fazer” (em Escritos e entrevistas, 1967-2013 publicado em 2014). Em outras palavras, o gesto de fazer uma marca se tornou o conteúdo do desenho, fazendo suas acepções gráficas e conceituais se fundirem.

Desígnio Desenho é um pequeno panorama da produção de Nena Balthar, que deixa evidente a opção da artista por apresentar um vocabulário visual que é, ao mesmo tempo, sem afetações formais, mas surpreendente em relação aos conceitos operacionais e seus suportes/técnicas, nos fazendo repensar as convenções acerca do que pode ser o desenho. Nena está interessada nas interseções da linguagem com o espaço e o tempo, desenvolvendo um pensamento acerca da corporalidade inerente ao ato de desenhar. A artista define bem o que faz: “desenho performático” – trata-se da grafia do corpo, um modo particular de arte e vida.

ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

 

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