Crítica semanal Vanessa Tangerini

Duchamp: curador e subversivo

Sobre a curadoria, o curador mexicano Cuauhtémoc Medina afirmou: “Onde quer que a noção de curador tenha aparecido foi para instigar o conflito, desejo, ansiedade, possibilidades e crise”. Esta pode ser pensada como uma prática que não trata somente de exibir obras de arte desde uma ótica específica, se não que busca discutir ativamente com a obra como elemento cultural. É uma atividade que supõe expor a obra ao mesmo tempo em que a problematiza e, portanto, gera contradições.

Nesse aspecto, é interessante analisar a atuação de Marcel Duchamp como gestor e executor de uma prática que podemos denominar curatorial mesmo sendo prévia à existência deste termo no campo artístico, o qual nos permitiria ver a sua figura como uma espécie de percussor da curadoria.

Poderíamos pensar que durante os anos 30 e 40 Duchamp já executava essa prática tanto em seu primeiro atelier, onde todo objeto era exposto em posições cuidadosamente determinadas em função da sua leitura, como nas exposições surrealistas onde trabalhou conceitualmente com a montagem e com instalações que intervinham diretamente na exposição.

Nestas exposições surrealistas de 1938 e 1942, Duchamp problematiza o próprio ato de observar, de ver a obra, questionando a jerarquia da visão e dando foco ao espaço arquitetônico e ao suporte da obra como elemento que a compõe. O artista ultrapassa os limites impostos pelas instituições que inibem e controlam tanto o modo de ver, como a forma de atuar do espectador nesse espaço. Duchamp joga com quebrar a “distância apropriada” de aproximação à obra predeterminada pelos museus, propondo a possibilidade de “aproximar-se com o corpo”.

Dessa forma, reformulando o ato de ver uma exposição, colocou em relação ao corpo, a obra e o espaço expositivo, gerando novas formas de aproximação e relação com a obra que terminaram virando uma nova experiência estética.

Duchamp, ao colocar em questionamento “o quê e como as instituições de arte nos fazem ver”, nos leva a refletir sobre a prática curatorial como uma abertura e multiplicidade de olhares. Podemos dizer que a curadoria, como uma prática subversiva, desde o seu quase indefinido nascimento estabeleceu rupturas e transformou a exposição na forma por excelência de apresentação e ação da arte.

Imagem de fundo:

First Papers of Surrealism, New York, 1942

Fonte de consulta:

FILIPOVIC, Elena; “Un museo que no es tal”. Em Marcel Duchamp: una obra que no es una obra `de arte´, Fundación Proa, Buenos Aires, 2008.

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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