Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Chacal no Instagram

A primeira postagem, 30 de novembro de 2018. Chacal começou a brincar com o Instagram faz poucos meses, dois meses antes de publicar, na rede social, o primeiro vídeo-poema. São vídeos curtos, com poucos segundos de duração, e coloridos. Não sei se o termo vídeo-poema nomeia bem o que o poeta tem feito, mas desconfio que o termo vídeo-poema nomeia mal o que quer que seja. Nos curtíssima-metragem de Chacal, leem-se: “AL / GUM / AL / GUÉM / MAS / QUEM / ???”, “KINDLE / OVO: / PARA SE LER / COMENDO”, “INSTARTISTA / INSTANTÂNEO, / CLAMO A VOLTA / DO ORKUT, / O FEL E O MEL / DAS INTRIGAS / SUBURBANAS.” etc.

Numa primeira aproximação, parece que estamos diante de uma estilização em vídeo animado de postagens típicas do Twitter, nas quais o trocadilho, o comentário metalinguístico, a concisão têm vez, curtida e compartilhamento. Como o texto postado em 23 de abril: “SENTADO SOBRE MINHA CABEÇA PARA BOQUIFECHAR. ELA BOQUIABRIU-SE EM BELÉM. SÓ ALEGRIA”. Ele noticia a chegada do poeta a Belém, aonde foi a trabalho. Mas em lugar do check-in online na cidade, a celebração em vídeo e texto da viagem.

Acontece que a transformação da postagem em vídeo demanda, ainda que curta, outra duração da leitura conduzida pela montagem do vídeo. Não reconheço o aplicativo ou software utilizado por Chacal para compor os textos animados, embora reconheça neles o desenho animado como referência de composição. O emprego das cores vivas e a movimentação das palavras, que aparecem se movimentando com direção, velocidade, padrão diferentes a cada texto, dão o tom Tom & Jerry à experimentação, que não cessa no fim da perseguição: “NADA É / TUDO ATRAVESSA”.

Quanto publicou, no dia 12 de abril, esse fragmento de Heráclito perdido na timeline, fez acompanhá-lo, como comentário, como outro poema: “nada é. tudo atravessa. num ritual, em meio à peia abrupta, chão não há. as paredes cedem ao toque. / nada é. tudo atravessa. nenhum amparo. equilíbrio, só o dinâmico. só seguindo em frente. mesmo que sem chão. / nada é. tudo atravessa. como a serpente, que deixa seu perfume, seu esperma, no barro em que se desloca na velocidade da luz.”

O elogio à errância ecoa num dos mais emblemáticos instapoemas de Chacal, onde um “R” se repete sob cores diversas até aumentar e ocupar quase toda a imagem, ecoando no leitor: erre, erre, erre. Gosto do que tem feito Chacal no Instagram como gosto do que tem feito Augusto de Campos no Instagram, como gosto de muito do que tem sido feito no Instagram: há um “risco” nos “contrapoemas” de Augusto, como leu Leonardo Gandolfi em texto publicado na Folha de S. Paulo, como há um “erre” nas postagens de @ricardo.chacal, expondo o poema à circulação dócil da timeline, provocando, por isso, menos a democratização do poema, mais a intriga entre os leitores. O poema provoca problemas de leitura para o poema.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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