Crítica semanal Ombela Assumpção

Paradigma do olhar ocidental

“Antes de tentarmos uma reconstrução do conceito pré-colombiano de arte, é interessante notar como o Ocidente passou a vê-la como “arte” e como ela foi ajustada aos esquemas estéticos ocidentais”.

Esther Pazstory

As culturas indígenas da América pré-colombiana foram interpretadas à luz de conceitos que circulavam na Europa no momento da colonização. Em Estética e Arte Pré-Colombiana, Esther Pasztory investiga o modo pelo qual a arte ocidental conduziu a leitura das produções artísticas dessas culturas não ocidentais e vice e versa. Historicamente a arte europeia passou por inúmeros processos, tendo sido afetada não só pelas relações traçadas dentro de sua própria cultura mas também sendo modificada a cada novo contato com outros povos. Apesar de nutrir uma relação destrutiva com outras culturas, a Europa precisou olhar para si no contato com o outro e isso significa pensar sobre o que causa repulsa e se quer manter afastado sob o véu dos conceitos, por exemplo do próprio conceito de arte.

O que a autora propõe é um enfrentamento com a historiografia ocidental ao afirmar que não é possível reconstituir as condições históricas dos objetos arqueológicos encontrados (como é de costume do campo), as possibilidades de diálogo estão mais próximas do alargamento do conceito de arte dentro das categorias ocidentais. Para testar seu ponto, Esther relembra diversos momentos em que o entendimento do que é a arte pré-colombiana foi reconfigurado em torno das manifestações artísticas que proporcionaram viradas no entendimento da arte ocidental.

O primeiro e talvez mais significante desses momentos até os dias de hoje, remonta o período que compreende o final do século XVIII e início do XIX com a descoberta do sítio arqueológico de Palenque, onde teria existido a civilização Maia, em paralelo a isso, na história da arte ocidental se revisitava a cultura greco-romana com o neoclassicismo por meio de descobertas no campo da arqueologia clássica.

A coexistência desses dois momentos foi crucial para a ocorrência de uma interseção formal dada pelo antiquarista francês Frederick de Waldeck em sua viagem a Palenque onde retratou por meio do desenho registros da cultura material maia. Influenciado pela exaltação das formas clássicas, em que a produção mimética é o centro, Waldeck projeta categorias do “clássico” em sua abordagem e a cultura maia passa a ser preferida em relação  as outras culturas pré-colombianas por possuir características facilmente assimiláveis à “arte clássica”, não é por acaso que por se encaixar numa dinâmica mais naturalista passam a ser chamados de “maia clássico”.

Apesar da preferência pelas categorias de belo propostas pela arte grega, as vanguardas do final do século XIX e inicio do XX foram capazes de proporcionar uma ampliação do olhar ocidental para outras expressões de culturas pré-colombianas, pela quebra do parâmetro clássico de representação. Assim como a arte africana entrou para o sistema de arte ocidental e ganhou uma outra narrativa  – a saber, objetos roubados de seus povos de origem – , dentro do contexto europeu principalmente pela figura de Picasso, outras culturas da mesoamérica foram observadas com maior atenção e algumas de suas produções materiais observadas pelo aspecto da síntese formal abstrata, tais como Teotihuacán e Tiahuanaco. Um exemplo das possibilidades geradas para a arte moderna está na escultura de Constantin Bracusi, ao trabalhar o monólito de pedra em 1907 para O Beijo, que pode ser facilmente comparado ao Totem monolítico de Tiahuanaco.

Não  somente clássico e anticlássico foram capazes de conduzir os estudos da cultura material pré-colombiana, mais recentemente a land art dos anos 60 em que o meio é o suporte e a fusão com a natureza para além do caráter estético questiona a comercialização da arte, essa pesquisa gerou interesse pelas famosos geoglífos de Nazca (200 AC – 800) na região andina. Essas intervenções em grandes áreas naturais não parecem despropositadas e também não configuram estradas de caráter comunicacional, especula-se que poderiam ser caminhos para procissões com sentido religioso.

Porém, apesar dessa retroalimentação entre o que o ocidente entende por arte, o alargamento desse conceito e a intervenção não só na leitura mas como na apropriação de outras culturas e até mesmo a destruição do que não era considerado relevante, uma observação deve ser feita. A arte ocidental não deve ser a definidora em um país como o Brasil pois ela não contempla a cosmovisão de mundo indígena e não considera que o contato entre os povos que aqui viviam e os indígenas da região andina, por exemplo, foi anterior ao dos europeus como Cristiana Bertzoni aborda em A cordilheira e a floresta. Além disso, também deveria se considerar o contato entre os povos africanos e os povos da mesoamérica, anterior à colonização européia.

Observar de que modo o intercambio entre essas culturas se deu de modo a contemplar  a realidade do que é a população Latina Americana, composta majoritariamente por descentes de povos africanos e indígenas. O ego intelectual europeu foi responsável por estigmatizar historicamente todas essas culturas de uma só vez. O exótico em oposição ao clássico revela a mentalidade colonizadora da Europa que se coloca como universal e definidora.

Kemet (Antigo Egito) também é um exemplo de civilização tomada como o outro cultural, através das escrituras de Athanasius Kircher, um pseudociêntista jesuíta alemão do século XVII. Suas afirmações estéticas tem um significado ideológico mesmo que não intencional. As classificações não são ingênuas, o campo da estética e a inauguração do juízo universal de gosto são afirmados, no oitavo parágrafo do texto, como benéficos para a apreciação desinteressada porém podemos questionar a própria categoria de análise e o uso de formulações abstratas universais como um problema em si. O fato de algumas produções materiais da cultura dos povos pré-colombianos serem considerados pela cultura européia a partir de Emmanuel Kant pela autonomia entre a estética, a ética e a epistemologia não isenta o fato de que a medida de todas as coisas passa pelo olhar ocidentalizado e por isso tão importante quanto assumir anacronismos, é decolonizar a mente e o olhar, estando atento aos fenômenos transculturais, para que a partir daqui a produção sensível de conhecimento tanto no campo da história da arte como em qualquer outra área considere a narrativa do que foi classificado como exótico, primitivo e inferior.

*Imagem da capa: reprodução da litografia de Jean Frederick de Waldeck.

 

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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