Crítica semanal Vanessa Tangerini

Arte pré-colombiana em um Museu de Belas Artes

O Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires inaugurou no mês de abril um setor dedicado à arte pré-hispânica. São duas salas de exposição permanente onde se exibem ao redor de 400 peças pré-hispânicas realizadas pelas culturas do noroeste argentino e obras de arte colonial. É uma decisão que gera contradições e debates, principalmente sobre a questão de se é correto ou não exibir peças de culturas pré-colombianas em um Museu de Belas Artes. Ao mesmo tempo, é interessante pensar sobre os significados gerados a partir desse deslocamento.

Alguns, ainda apegados a conceitos do século XIX, acreditam que o Museu de Belas Artes deve ser um lugar para a pintura e a escultura. Outros acreditam que as peças pré-hispânicas não devem ser enquadradas em uma categoria européia como a de belas artes. Neste caso, valeria recordar que as categorias “museu”, “arte” e “antropologia” (ótica desde a qual, na maioria dos casos, esses objetos são exibidos) também são categorias euro-ocidentais.

Acredito que, por um lado, esta decisão pode ser vista como um questionamento à própria categoria de “belas artes”. Por outro lado, se remontamos à criação do museu nos encontramos com uma instituição que nasce a partir do projeto de conformação de uma nação e, conseqüentemente, da busca de uma identidade nacional a través da arte (da qual foram excluídos os povos originários e a sua produção estético-cultural).

A questão é: se vamos conceptualizar essas produções desde uma perspectiva estética, reconhecendo estes objetos a partir da categoria “arte”, porque, então, não poderiam estes ocupar o mesmo espaço institucional que um quadro histórico ou uma pintura de Manet?

Reconhecer o gesto estético-cultural desses povos em uma instituição cujo nascimento ignorou e excluiu as culturas prévias ao conceito de nação termina sendo um ato significativo. Por outro lado, resgatar as culturas do noroeste em uma das entidades artísticas mais estabelecidas de um país cuja capital, Buenos Aires, além de estar culturalmente europeizada, centraliza e monopoliza a produção artística também pode ser lido como um ato de reivindicação.

Por fim, seria interessante gerar debates e análises mais focados no critério de exposição desses objetos, na forma em que são contextualizados e em que discurso propõe a curadoria. Talvez o mais importante de tudo seja definir se a proposta é crítica ou não.

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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