Crítica semanal Ombela Assumpção

Arte indígena e novas mídias

O eixo arte, ciência e tecnologia no Brasil foi impulsionado principalmente pelas instituições de arte e cultura. Bienais, prêmios, festivais e outros eventos que foram consideravelmente legitimadores para consumo de novas linguagens e ampliaram o campo de investigação dos artistas proporcionando uma expansão da arte mídia no Brasil.

Edward A. Shanken, autor de Art and Electronic Midia e um dos principais teóricos da temática, no texto Historicizar arte e tecnologia: fabricar um método e estabelecer um cânone indica como podemos desafiar o cânone da história da arte a partir de uma abordagem que considere as manifestações do ambiente técnico. Segundo o autor, essa pode ser uma boa oportunidade para as mudanças epistêmicas no campo, uma possibilidade de alargar a historiografia da arte  e até mesmo incorporar outras estruturas narrativas como por exemplo através de tecnologias interativas.

Para pensar arte e novas mídias no Brasil, não digo para  além das instituições mas principalmente para além dos protagonismos já esperados e que de certa forma acabam por reforçar os cânones, tendo como alimento teórico o processo de transculturação podemos entender a arte indígena contemporânea que privilegia o uso de novas mídias. O fenômeno social da transculturação – conceito cunhado pelo cientista social cubano Fernando Ortiz – indica a sobrevivência de elementos culturais dos povos colonizados e vítimas do genocídio nos registros artísticos impostos pelo colonizador. Transculturação vem como uma alternativa ao termo aculturação que indica a morte de uma cultura. Transculturação é Antropofagia.

  1. As colagens digitais produzidas pela fotógrafa e artista visual de origem kariri-sapuyá Mavi Morais dispõem de uma estrutura onde o corpo indígena é projetado ao centro e ganha uma dimensão divina pelo uso da aureola. As cores sólidas e chapadas são outra característica formal que se encarregam de uma subjetivação positiva da representação. https://www.instagram.com/moraismavi/

2. Arte Eletrônica Indígena é um projeto que envolve uma série de residências artísticas, em aldeiamentos indígenas, propostas pela ONG Thydêwá. Consiste em uma produção coletiva entre o povo indígena e o artista residente   ciência e tecnologia não alimentam a arte, as ideias emergem em várias áreas e se cruzam envolvendo “diversas expressões artísticas da cultura digital”. http://aei.art.br/

https://www.youtube.com/watch?v=NvtQrJ1UqOI

  1. RePangeia | Uma experiência tecnoxamanica em realidade virtual: exposição desenvolvida pelo Laboratório de Atividades do Amanhã do Museu do Amanhã, onde a proposta girou em torno de uma reconexão com a natureza e a ancestralidade.

  1. A obra Google Tradutor da artista Betzaida Tandioy se reapropria do famoso serviço virtual gratuito de tradução da multinacional Google. A partir de suas pesquisas sobre língua e cultura a artista elabora essa crítica à ausência de idiomas indígenas disponíveis para tradução na página.

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  1. Rádio Yandê: web rádio indígena que além de trazer a atualidade da música indígena busca “a união sem fronteiras, promovendo convergência e descolonização dos meios de comunicação além de novas formas de transmissão oral dos saberes”.http://radioyande.com/

Reapropriar-se de conceitos saqueados, recriar contextos, fundar novas utopias, indicar caminhos para um novo regime visual que descaracterize a percepção vulgar do que é ser indígena. o uso de novas mídias é um terreno fértil para a proliferação de uma historiografia da arte indígena que saia do lugar comum quando o assunto é historicizar a arte indígena.

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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