Crítica semanal Gabriela Manfredini

O FIM DO MUNDO

A Bienal de Veneza de 2019 vem intitulada “Que você viva em tempos interessantes”. É uma resposta às instabilidades e desafios atuais; do aumento das políticas de direita, mudança climática, inteligência artificial, notícias falsas e vigilância; justamente em uma cidade que está entre as mais vulneráveis às marés crescentes.

A Bienal mostra um mundo visto de um futuro próximo, pós-humano e apocalíptico. Seguindo este raciocínio, a Bienal de Istambul que começa em setembro tem como título “O Sétimo Continente” referindo-se ao continente de plástico e microplástico que se forma ao norte do Oceano Pacífico. Ou seja, o clima de urgência com o planeta seguirá intenso e categórico – ao menos nas artes. Há dois anos, o filósofo político e crítico cultural Slavoj Žižek identificou a arte de sentir-se mal e desconfortável como uma característica inevitável das grandes exposições internacionais dos últimos anos.

Na Bienal de Veneza, o pavilhão dos países nórdicos (Finlândia, Noruega e Suécia) tenta nos aproximar de outras formas de vida que não a humana. Entre elas, bactérias e microorganismos que tem papel fundamental, por exemplo, na decomposição. A Lituânia tem um dos pavilhões mais visitados: se trata de uma ópera na praia que fala sobre catástrofe ambiental. Uma das cantoras sofre de angústia com turistas que sujaram a praia com cerveja derramada, restos de peixe defumado, cocô de cachorro e uma rolha de champanhe. A performance acontece somente aos sábados durante o dia todo. No pavilhão da Nova Zelândia; espécies de animais extintas, jornais que saíram de circulação e eventos antigos estão incluídos em uma lista de coisas desaparecidas ou perdidas que serão transmitidas durante os sete meses de exposição. São 10 mil transmissões por dia da obra que demorou dois anos para ser feita. O pavilhão da Bulgária discute a industrialização e acumulação, onde os artistas investigam os processos de fabricação e consumo hoje. Estes são só alguns exemplos, outros países como Andorra, Canadá e Kiribati também falam do assunto.

Outro projeto que mira o fim do mundo é o Memory of Mankind (MOM). Martin Kunze criou o projeto em 2012 para contribuir na preservação da civilização moderna do esquecimento e da amnésia coletiva. Mais do que um simples projeto de arquivamento, ele procura criar a “cápsula do tempo de nossa era”, ao permitir que qualquer pessoa participe enviando textos e imagens. As informações são impressas em tablets de cerâmica e depois são enterrados na mina de sal de Hallstatt na Áustria. Em caso de colapso, o projeto do MOM poderia ajudar os sobreviventes a reconstruir a civilização. É também uma crítica à era digital onde talvez nada do século XXI vá durar no futuro, já que a maioria das nossas interações é virtual.

Apesar do grande pessimismo com o futuro do planeta, Ralph Rugoff – curador desta edição da mais antiga Bienal do mundo – aposta em conversas substanciais e na conexão e empatia entre as pessoas neste trabalho. Segundo ele, “o público pode usar sua experiência de exposição para confrontar realidades cotidianas de pontos de vista expandidos e com novas energias. Uma exposição deve abrir os olhos das pessoas para formas anteriormente desconsideradas de estar no mundo e, assim, mudar sua visão desse mundo”. Esperamos que ele esteja certo, e com otimismo, que o planeta realmente se torne um lugar melhor.

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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