Crítica semanal Vanessa Tangerini

Os caprichos virtuosos de Max Gómez Canle

O relato começa com Bête peintre-Manifeste (Fera pintor – manifesto), 2003-2006, onde vemos uma mão peluda (a de uma fera-pintor) em plena ação de representar uma rosa sobre uma tela: pintura dentro da pintura. Este mesmo relato termina com Monstre dormant (Monstro adormecido), 2009, pintura onde uma figura aparentemente adormecida parece ter sido atormentada pelas obras de arte concreto que a rodeiam: neste caso, são várias obras dentro da obra. O que acontece no meio eu tentarei plasmar nas próximas linhas.

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Max Gómez Canle (1972) é um artista argentino que desde 2001 expõe de forma periódica as suas obras na Argentina, e desde 2006 em São Paulo. Atualmente o Museu de Arte Moderno de Buenos Aires apresenta a sua primeira exposição antológica, El salón de los caprichos que reúne obras realizadas entre 1999 e 2019.

Sua obra apresenta um encontro entre “a tradição pictórica ocidental” e a “voracidade contemporânea” através da combinação de referencias da historia de arte (paisagens flamengas, imagens renascentistas, surrealismo metafísico, arte concreto argentino, auto-retrato da Frida Kahlo, quadrado preto de Malevich, etc.) com referencias da cultura digital contemporânea (tetris, pixels, memes), tudo isso através de um virtuosismo técnico que recorda à pintura tradicional.

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Por outro lado, a sua produção propõe uma reflexão constante sobre a obra como dispositivo de representação, abordando a pintura como uma “encenação do tempo e do imaginário fantástico” e, ao mesmo tempo, evidenciando a sua materialidade. Em suas obras as molduras se movem, se transformam em obra para que, ao mesmo tempo, a obra se transforme em moldura, são substituídas por perfurações na parede que passam a ocupar o lugar do suporte e, em outros casos, desaparecem por completo. Esse deslocamento ou ausência, por momentos, gera a sensação de que a parede branca é na verdade um vazio que forma parte da obra. Neste processo, parece realizar um questionamento lúdico e provocador sobre os conceitos tradicionais da pintura, ao mesmo tempo em que se apropria deles, sempre reflexionando sobre os limites da representação.

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Na exposição algumas obras estão dispostas em conjuntos, como se quisessem dialogar, e parecem quase transformar-se em uma, como uma espécie de instalação. Ao mesmo tempo, a curadoria realizada em uma sala amplia e sem divisões parece conceber o espaço como uma grande instalação. Nesse sentido, gera a sensação de que a sala é uma obra que contém as outras obras (os quadros e objetos do artista) que, ao mesmo tempo, contém em si a outros quadros (representados), gerando uma sucessão infinita de representações.

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Na obra de Max Gómez Canle uma moldura não é um limite entre interior e exterior, entre dentro e fora, e sim uma linha a mais que compõe a obra; ao mesmo tempo em que, uma linha nunca é somente isso. Com a mesma facilidade em que linhas são justapostas, se justapõem também as representações que, por momentos, parecem ser infinitas ou que ao menos não sabemos quando ou onde irão terminar, voltando sempre a cair nas contradições da obra como dispositivo de representação.

 

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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