Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

A poesia, antipoeticamente falando

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Ela se publica à sorrelfa e mal há uma rede de leitores que acompanhe isso que se pode chamar de antipoesia, ou que outro dia um amigo, pegando um termo no ar, chamou de pós-poesia, ou poderia ter chamado também, com a irresponsabilidade de quem dá nome aos bois quando não há bois, contra-poesia, não-poesia, poesia.

É que, por exemplo, nesse ano de 2019 o ex-poeta Sebastião Nunes, como ele, em algum momento, se nomeou, lançou um (?) livro em cujo subtítulo se lê: “memórias e desvarios de um poeta inacabado”.

Um caso liquidado, publicado pela editora Lote 42, de São Paulo, com projeto gráfico de Gustavo Piqueira, reúne três trabalhos do (ex-)poeta, cujos livros posteriores à década de 1980, à publicação da Antologia Mamaluca, experimentaram outros registros e formas de composição textual (enciclopédia, tratado, crônicas) que não dialogassem com a tradição do poema. No entanto, nesse livro novo, um poeta escreve, anotando, na primeira parte, alguns fragmentos críticos, sobretudo dedicados à questão da autoria, ponto forte da obra de Sebastião Nunes, e da poesia experimental em geral.

O texto VIII, “Tratado geral de epigonia”, por exemplo, que encerra a primeira parte do livro, argumenta, exagerando até o absurdo, que a poesia deve trabalhar contra a autoria dos epígonos, o que, no caso de Sebastião Nunes, não representa a demanda do cânone como única alternativa, mas, antes, a demanda da destruição da poesia como alternativa à sua diluição. “Proposição / A poesia tem importância quase nula na ordem das coisas, tem menos ainda por culpa dos epígonos, que vivem às turras com outros epígonos. No entanto, incentivados por epígonos, muitos poetas se consideram responsáveis pelo movimento das galáxias. / Corolário / A poesia, poeticamente falando, é uma noite estrelada.” O aproveitamento do discurso lógico-filosófico, comum na obra do ex-poeta, satiriza não só a política literária, elevando ironicamente a linguagem para falar dela, como também a própria argumentação, que deixa de ser confiável porque anacrônica.

É uma autoironia que, no entanto, reivindica, para o poeta radical, reconhecimento de sua radicalidade, ou, para Sebastião Nunes, de sua poesia, o que dá no mesmo. Como na introdução à primeira parte do livro, quando satiriza o meio literário universitário: “Mortos os escritores, apurada vida e obra no juízo da crítica, tornam-se propriedade dos professores, que não só ganham dinheiro e prestígio com a obra dos defuntos, como passam a vida em congressos e viagens, viagens e congressos destinados a, principescamente, discutir vida e obra de pobres coitados que, em vida, mal saíram de casa espremidos entre a obra difícil e as dívidas impagáveis.” O exagero do retrato (professores que “ganham dinheiro”, risos) não deve esconder a agudeza do argumento: a crítica deve fazer justiça ao trabalho da obra, a dificuldade e a dívida das obras não devem ser absorvidas por uma crítica fácil e remunerada, sob o risco de o trabalho da obra se perder na vernissage dos críticos.

O que deve ser retido principalmente da defesa da poesia por Sebastião Nunes é o sentido democrático das artes, o que significa o trabalho de destruição das artes em nome da sobrevivência às condições desiguais de existência. A poesia é um trabalho que endivida. Por isso, ela não deve ser escrita nem lida como um trabalho apesar da dívida que produz em contexto capitalista, antes como um trabalho produtor da dívida. Na segunda parte do livro, “Síndrome do pânico”, uma série de fragmentos propõe uma “educação pelo pânico”, rememorando, como no segundo fragmento, os sentidos dessa experiência de pavor. Nos outros trechos como aqui, a negatividade atua ao ponto de se realizar como figura da vida, paradoxal figura que não aparece, como a poesia: “Lembrete para o segundo ataque, seis anos mais tarde: a professora de desenho morta de derrame depois do cinema de sábado à noite. No sábado seguinte a fulgurante punheta depois do cinema – e então ele entrou. Pelos poros, pelos olhos, pelo nariz. Absorvente na escuridão do quarto antigo de porta maciça e janelas maciças e assoalho maciço e telhado de telhas sem gretas onde fiapos de luz sumiam no breu.”

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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