Crítica semanal Vanessa Tangerini

Modernismos e heranças culturais: Wilfredo Lam

O curador e historiador da arte Gerardo Mosquera (Cuba, 1945) realiza um resgate de sentido da produção do artista cubano Wilfredo Lam (1902-1982) em oposição aos discursos centralizados e hegemônicos da história da arte ocidental.

Wilfredo Lam, nascido em Sagua La Grande (Cuba), era filho de pai chinês e de mãe afro-cubana. Durante a sua formação artística se estabeleceu na Havana, na Espanha e na França. Foi durante a sua estadia na Europa que teve contato com os movimentos e artistas modernos, desenvolvendo uma relação com Picasso. Ao regressar a Cuba, depois de quase 20 anos, vinculará as suas investigações artísticas com o universo da sua infância e juventude, e com os rituais afro-cubanos.

Neste caso, o que Mosquera propõe é um olhar sobre a obra de Wilfredo Lam desde América Latina, em oposição à história da arte eurocêntrica que descontextualiza e desterra. Para isto, recomenda que abandonemos a tradicional e errônea percepção do artista como um “filho de Picasso”, para resgatar-lo como o primeiro artista a introduzir o elemento afro-americano na história da arte.

O curador propõe considerar e valorizar as obras de Lam menos como um produto do surrealismo, ou da inclusão de elementos “primitivos” na arte moderna, e mais como fruto da manifestação da cultura cubana e caribenha, e o artista como pioneiro.

Crítica Sábado 22-06 Imagem 1

“Ave caribenha”, 1952.

Na produção de Lam o universo não é regulado pela polaridade do bem e do mal.

Mosquera diferencia Wilfredo Lam de Picasso e de outros artistas modernos. Enquanto estes incluíram as máscaras africanas na sua produção artística em busca de uma síntese formal, descontextualizando-las e eliminando o seu significado, Lam desloca a sua busca aos significados em vez de permanecer no puramente formal. Ou seja, o artista preencheu o cubismo com o significado que o movimento havia ignorado em seu uso morfológico da arte africana.

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“Maternidade em verde”, 1952.

Em suas obras Lam representa a mitologia do Caribe, cuja mensagem é à unidade de vida, uma visão característica das tradições afro-cubanas onde tudo está interconectado.

No entanto, esse ponto de vista não significa deixar de reconhecer a sua formação acadêmica e a influência de Picasso ou do surrealismo. O que Mosquera defende ao realizar essa revisão é a tese de que Lam, ao basear a sua produção nos elementos de herança africana vivos na cultura cubana, cria um espaço não ocidental dentro da tradição ocidental, originando a primeira visão da arte moderna desde o ponto de vista afro-latino-americano.

Imagem de fundo: Fragmento da obra “A selva”, 1943

Fonte: Gerardo Mosquera, ed., Más Allá de lo Fantástico: Crítica de Arte Contemporáneo de América Latina (Cambridge, Mass: MIT Press, 1996) pp. 121-132.

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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