Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Philadelpho Menezes: poesia, demolição e vertigem

Foi ao longo da década de 1980 que Philadelpho Menezes publicou em série três pequenas plaquetes de poesia visual, todas arte-finalizadas por Ana Aly. 4 achados construídos (1980), uma plaquete sem título lançada em 1984 e Demolições (ou poemas aritméticos) (1988) organizam alguns poucos textos, cerca de 18, incluindo, entre eles, traduções de sonetos de Shakespeare e Baudelaire, compostos entre 1978 e 1986. Também tradutor dos poemas ingleses de Fernando Pessoa e dos pioneiros poemas concretos de Eugen Gomringer, Philadelpho se notabilizou por uma pesquisa das vanguardas poéticas desdobrada em livros como Poética e visualidade (1991), Poesia sonora (1992), Roteiro de leitura: poesia concreta e visual (1998) e na organização de exposições como a I Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo (1988). Sua obra poética, na década de 1990, passa ao formato do CD-Rom, mas falta ainda a disponibilização desse material esgotado e, em grande medida, de suporte obsoleto no contexto predominante dos smartphones.

Os 4 achados construídos colocam-se em diálogo sobretudo com a pesquisa que vinha sendo realizada por Augusto de Campos na década de 1970, lendo Marcel Duchamp e John Cage. A plaquete, reproduzida no blog de Amir Brito Cador (https://colecaolivrodeartista.wordpress.com/2010/09/27/philadelpho-menezes/), traz mesmo uma homenagem a Duchamp e um último poema apropriado de Augusto, brincando com a palavra “rever”. O poema dedicado a Ana Aly, no qual uma barra inclinada atravessa uma letra A desenhada em fonte de modelo quadrado, lembra os logogramas de Pedro Xisto, como “Zen”, que jogam também com a sobreposição das linhas que compõem as letras da palavra. O resultado é um enigma tipográfico que guarda, numa letra teórica achada, o nome da amada, Ana. O primeiro poema é, entre os quatro, o mais simples e o mais atual, ao mesmo tempo em que o mais obsoleto. A calculadora, um negativo da poesia. A série de algarismos 612309, lida diante de um espelho, revela a palavra POESIA, esse objet trouvé no entanto construído na imagem em negativo do objeto fotografado.

O termo “intersignos” com que Philadelpho Menezes designava sua poética procura marcar o trânsito de linguagens de que ela se compõe. A letra e a imagem, a palavra e os números, as artes e a poesia, a língua e a tradução são alguns dos principais encontros reconhecidos nos seus textos, cuja poética pode ter sido sintetizada em “Clichetes”, que abre a segunda plaquete. A reescrita da embalagem do Chiclets, transformada em “GOMA DE MASCARAR”, “SABOR MENTAL”, como que revela a imagem sob a aparência da embalagem. O produto embalado, agora, é o processo do poema, o qual se mantém no registro do clichê pelos trocadilhos simplórios, esvaziando-se. O poema ganha muito se aproximado da cena de “Amor”, de Clarice Lispector, já que em ambos o chiclete e a cegueira são aproximados, em ambos a náusea da goma mastigável e não comestível comparece, em ambos a literatura, como um chiclete mascado por um cego, faz-se sob o risco de cair em si e reconhecer-se nada, nonsense ou uma sombra na caverna. Esse o risco da poética intersignos.

Demolições apropria-se das matrizes, do silogismo, da fita de Moebius, dos anagramas, da regra de três como formas de organização do texto verbal na página. A incógnita, por exemplo, na equação “PORCO: LAMA / CORPO: x”, produz uma estranha ambiguidade pois a solução anagramática, ALMA, representa também o único elemento imaterial da série de nomes, de modo que manter irresolvida a incógnita parece responder melhor ao problema do que resolvê-lo. Na fita de Moebius, a ser recortada e montada, será lida, quando pronta, a frase infinita: “DA ANTIMATÉRIA DO UNIVERSO DA ARITMÉTICA AO VERSO DA ANTIMATÉRIA DO UNIVERSO DA ARITMÉTICA AO VERSO DA ANTIMATÉRIA DO UNIVERSO…” Verso e universo, nessa frase, tornam-se palavras ambíguas, o avesso da antimatéria, ou o campo da aritmética são contrapostos ao verso e ao universo como nomes concretos. Por fim, um poema como “contagem regressiva” revisita “No meio do caminho”, de Drummond, revelando-lhe o teor de negatividade resultado do procedimento de composição: “tinha um cálculo / no meio do caminho / do poema”.

O namoro com o número nos poemas de Philadelpho Menezes, contemporâneos da pesquisa computacional (que Pedro Xisto, com o poema combinatório Vogaláxia, de 1966, aproveitou pioneiramente), testemunha uma distinção entre linguagem verbal e linguagem computacional que não conseguimos mais vislumbrar nas timelines ou nos aplicativos organizados por algoritmos. Os poemas produzidos com auxílio do google (para adotar a expressão de Angélica Freitas) ou próximos desse mecanismo de previsibilidade dos textos, como “uma mulher”, de Flavia Péret, revelam uma pesquisa na qual a palavra ganha ou perde pontos na bolsa de valores da timeline. Revisitar Philadelpho Menezes significa re-conhecer, em sua poética intersignos, os nascedouros de uma poética interdiscurso, para usar, provocativamente, o conceito desenvolvido por Dominique Maingueneau. Ou, apropriando-se de um significante em alta nos últimos dias, alavancado pelo aplicativo Netflix, pode-se reconhecer nos poemas de Philadelpho uma poética em vertigem, produzindo, como a democracia no Brasil, um estado de pessimismo quando se assiste às demo/lições (no trocadilho reconhecido na capa da plaquete) da história.

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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