Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

História da poesia visual brasileira

História da poesia visual brasileira no acervo do arquivo Paulo Bruscky, exposição atualmente no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, intervém no modo de ler essas obras que, em diálogo duplo com a tradição da poesia e das artes visuais, sob o influxo das vanguardas e do desenho industrial, se encontram entre a imagem e a escrita. Num dos ensaios que integram o catálogo da exposição, Adolfo Montejo Navas, um dos curadores da mostra, multiplica os nomes para esse corpus textual, à falta de consenso e à procura de precisão crítica: “lírica dos signos expandida”, “lírica intersemiótica e imagética”, “lírica aberta ao poético”, “poesia visual-experimental”, “poesia visual ampliada”, que se completa por caracterizações como: “imagens-dissenso”, “produção entre-linguagens”, “pesquisa visual-sígnica”, “escrita imagética”. Sob a multiplicação dos nomes, Navas propõe a compreensão da diferença entre ler e ver como o problema que mobiliza a leitura dessas obras, que convidam a ver as palavras como imagem e a ler as imagens como escrita. 

Numa das obras registradas no catálogo, o potiguar Moacy Cirne (1943-2014) oferece três cartões coloridos, em amarelo, preto e vermelho, tracejados por seis linhas diagonais que perfuram o papel para, assim, destacar suas partes formando polígonos variados, como um tangram às avessas. A obra de 1973, intitulada “Poema para picotar”, conversa com a poética do poema/processo, convidando o “leitor” a cortar o papel retangular, figura da leitura do poema em versos que, crítica, pode operar por análise, ou seja, por desmontagem da unidade textual a fim de compreender melhor a sua composição. Espécie de literatura utópica que incluísse leitores iletrados, procurava emancipar a leitura por meio de mecanismos lúdicos de revelação dos processos de composição textual, como uma pedagogia do texto artístico de teor revolucionário. (Ainda está por se pesquisar as afinidades do pensamento e das práticas de Paulo Freire em relação às práticas artísticas dos anos 60/70 no Brasil.) 

Lida sob a perspectiva do leitor literário, o “Poema para picotar” torce até ao paroxismo a compreensão do poema, vinculando-se apenas contextualmente ao problema da literatura. A referencialidade inerente às línguas, ao contrário do que acontece com as imagens, torna problemática a consideração do “poema” de Moacy Cirne, que, então, vem sendo compreendido como tal no campo das artes visuais, apresentando-se em catálogos de exposição, em geral ausente no debate crítico literário. Esse problema parece marcar a diferença de recepção da poesia concreta, inserida no debate literário, em relação ao poema/processo, inserindo-se nos últimos anos do debate das artes visuais. (Também por se pesquisar: o déficit de leitura da poesia neoconcreta.) 

História da poesia visual brasileira, sob curadoria de Navas, Paulo Bruscky e Yuri Bruscky, tomam partido nessa história, alterando geografias. A mostra homenageia dois precursores, Vicente do Rego Monteiro e Wlademir Dias-Pino, que iniciaram suas pesquisas antes da I Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, um no Nordeste, outro no Centro-Oeste do país. Na exposição, o protagonismo do poema/processo, movimento de muita produção nordestina, não apenas confirma a reorientação geográfica, como também convoca a leitura da poesia visual sob perspectiva artística textual, e não poemática, o que significa uma historicidade de campos e relevos, em vez de cismas e encruzilhadas.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

 

 

 

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