Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Poemas para comer

Nos dias 27 e 28 de junho a Cooperativa de Mulheres Artistas (CoMA) ocupou o espaço expositivo da casa A MESA e a praça da Rua do Jogo da Bola, no Morro da Conceição, RJ, propondo a vigésima primeira “experiência” no lugar. Entre as obras expostas, um poema de Thais Medeiros foi apresentado e servido sobre as mesas de concreto da praça pública. “Poema contra escassez” foi oferecido em pequenas vasilhas de metal e podia ser comido com palitos de sorvete à disposição. 

À primeira vista, a gelatina esbranquiçada na qual se reconheciam folhas, pétalas ou pequenas ervas não convida a comer, ainda mais sob a concorrência do churrasquinho da Dona Graça, moradora do bairro, e, na mesma noite, do prato de coração de bananeira também preparado por Thais Medeiros. Tendo se formado a partir de uma residência vivenciada nos começos de 2019, a CoMA contou inicialmente com Thais Medeiros, que, no entanto, estava como artista convidada na Experiência n. 21 – Conduta. Da residência ou da memória da residência vieram as obras, como o poema de Thais, preparado com água da chuva. 

O poema é servido e, com ele, é entregue um cartão-postal onde se vê, fotografada, parte de uma mesa posta, a gelatina ainda quente na fôrma, flores sobre a mesa ou numa xícara, e uma porção de pimenta-biquinho. No verso, a receita do “Poema contra escassez”, subintitulado “Cozinhar com água da chuva”, traz os ingredientes (água da chuva, ágar-ágar e ervas aromáticas) e o modo de fazer em duas etapas simples. Em diálogo com a arte postal e a performance, a obra de Thais Medeiros se nomeia como “poema” e traz, no uso das flores, da receita e da cena doméstica, a memória de traços culturais de gênero historicamente associados às mulheres, além da perspectiva agroecológica, propondo nesse caso a colheita do alimento disponível em qualquer lugar. A obra faz jus, como num trocadilho, ao nome do grupo: CoMA.

Não se trata de um poema-receita, como a feijoada de Vinícius de Morais ou o arroz soltinho de Viviane Mosé. O trabalho de Thais talvez convide a pensar no poema mesmo como o lugar paradoxal de escassez contra a escassez. O título pode provocar um ruído incômodo, já que a fome persiste como problema na perversa desigualdade social brasileira. O poema, realizando-se assim, parece endereçar-se aos que comem e consomem os alimentos como mercadorias, provocando um estado de alimentação em grau zero. O alimento cai do céu, de graça. A chuva, “ingrediente” abundante que pode ser coletado e conservado por longo tempo, é a base da receita lúdica cujo resultado é um alimento, como diriam as crianças, “com gosto de planta”. O teor pedagógico do poema, que ensina sobre as práticas agroecológicas e convida a todos para a cozinha, não é destituído de ironia na medida em que dispensa o trabalho da terra e é enunciado no contexto da experiência artística. 

Nesse sentido, o fazer e o consumir coletivos do poema podem ser pensados sob o signo da Cooperativa, que repropõe a colaboração, o laborar conjunto, em prol de uma cooperação, a produção da obra conjuntamente. Assim é que se pode lançar, a partir da proposta da CoMA e lendo de perto o poema de Thais Medeiros, a noção de um cooperartivismo, com o r intruso arranhando e introduzindo as noções de arte e ativismo ao trabalho de agenciamento das cooperativas.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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