Crítica semanal

Rafael Zacca: Carta para Marcela Cantuária

Marcela,

ainda me lembro de como fiquei chocado ao ver A chinesa do Godard, um pouco sem entender nada, um pouco achando francês demais, um pouco achando aquilo tudo uma festa terrível de boa. Vermelha estourando. Sempre me pareceu eletrizante alguma coisa feita por alguém com gosto. Vendo A chinesa a gente vê o Godard gostando de filmar, o Godard gostando de ser comunista. E a gente fica assim, querendo essas coisas também. O vermelho estourando na Chinesa é menos uma cor que um desejo. Foi uma alegria conhecer o teu trabalho, menos por uma identificação política (que existe) e mais porque o teu trabalho, o teu desejo, foi, para mim, motor: incitava mais trabalho, incitava mais desejo. Tudo isso pelas cores também. Fiquei muito entusiasmado com teus quadros quase pop art, quase grafitti, quase acrílicos – com o entrelugar que eles ocupavam (segundo um pensador conterrâneo nosso, é esse o lugar de onde falam os latino-americanos, é do entrelugar que surge alguma arte latino-americana).

Eu queria começar te contando que eu fui à tua exposição – Sutur|ar Libert|ar – depois de visitar a do Klee no CCBB – e eu fui lá na tua, no CMAHO, porque a Clara Machado convidou. Eu gosto das coisas que a Clara faz. O jeito com que ela assiste os materiais, demora com eles, vê até onde eles aguentam, e os imprime. Os materiais: cabelo, dente, osso, o próprio pai, essas coisas meio impenetráveis. É um pouco o contrário do Klee, de certa forma, porque o Klee faz o material brincar: a impenetrabilidade do anjo, da criança, da geometria e da mancha obedecem a um jogo lúdico onde nada precisa se esforçar pra ser, nada precisa resistir. Não sei bem por que coisas tão opostas me emocionam em igual medida.

A Clara, na abertura da tua exposição, me mostrou você, de bolsa amarela cruzada. Quis falar contigo, mas você estava com muita gente em volta. Achei então que queria falar contigo num outro momento, sem a embriaguez dos encontros coletivos. Obedeci à intuição. Em seguida encontrei amigos e amigas que estão divididos entre quebrados e enfeitiçados. Quando não as duas coisas. Estávamos na Praça Tiradentes, a Pollyana Quintella em algum momento colocou o Bowie pra tocar (a Pollyana sempre bota Bowie pra tocar, a Pollyana é um solzinho que dura, dura), Modern Love:

But things don’t really change

I’m standing in the wind
But I never wave bye-bye

But I try, I try

E que, mal traduzido, pode ser alguma coisa como:

Mas as coisas não mudam na real
Tô de pé no vento
E eu nunca digo até mais

Mas eu tento, eu tento

Marcela, eu estou tentando falar sobre o seu trabalho, nada disso é realmente sobre amigos, amigas, outros artistas, canções, tradução etc., me acompanha.

Te escrevo assim, no mais, do jeito que dá, porque é difícil que um poeta e uma artista vivos se falem se não se conhecem, se não se gostam por muitos outros motivos. A verdade é que não nos conhecemos, não temos tantos outros motivos, nossos encontros foram outros – e a vida literária e a vida plástica andam pouco de mãos dadas em nossa década.

Eu queria te falar sobre muitas coisas de Sutur|ar Libert|ar – a primeira coisa que fiz, ao chegar à exposição, foi pedir por um caderninho e um lápis. Anotei um bocado de coisa, rasguei uma folha e guardei no bolso da bermuda. Depois perdi. Mas eu me lembro de uma coisa muito, muito espantosa, que me aconteceu. E é isso que importa, não é? Falar do momento do espanto. Foi quando eu parei diante do Tropa.

tropa
Tropa, Marcela Cantuária

O quadro me atravessou como uma impressão que sobrepunha outra imagem, guardada em mim já há alguns anos, quando estive frente a frente com O triunfo do céu, de Kazimir Malevich. Foi no CCBB, eu devo ter ficado mais de meia hora de frente praquela humanidade tripartida e unicor, que parecia dar adeus à própria natureza. Era como uma despedida. O Malevich fez O triunfo do céu em 1907, talvez essa humanidade não soubesse que não se despedia da natureza, mas da própria cultura.

Estávamos às vésperas do que o Hobsbawm chamou de Era das Catástrofes – o século XX, com suas guerras, estados de exceção e indústrias da morte, no primeiro, no segundo e no terceiro mundo. Aquela humanidade estava adormecida, pronta para despertar, e acreditava que o fim do sonho era um adeus. Mas não tinha como saber da dimensão daquele adeus. Aquela humanidade de Malevich se despedia com uma postura ritualística, de reza, mãos dadas sobre o peito, sem saber que na verdade se deitava sobre um caixão.

Em Tropa a sobriedade de uma pós-humanidade se sobrepõe àquele transe de 1907. Comparar os dois quadros é da maior importância. São poucos os pós-humanos em Tropa, em contraposição aos humanos potencialmente infinitos de Malevich; não estão apenas entre árvores, mas entre bibliotecas, a sua natureza é a própria cultura (no seu trabalho, Marcela, me parece importante que cultura e natureza não se oponham, isso libera a sua técnica de montagem para ver no artifício da cultura o índice de sua própria naturalidade); e as nuvens oníricas dão lugar a fuzis atirados ao chão. Isso se faz a partir de um acúmulo desigual de processos produtivos no seu trabalho, que mobiliza o anacronismo como técnica. Essa pós-humanidade não se prepara para dar adeus à natureza, mas para sobreviver a si mesma – e sonha, justamente, com outras relações de produção. Porque sabe que vive – sempre viveu? – ainda na Era das Catástrofes. Eu acho, Marcela, que o teu trabalho tem como meio ambiente a longa era – ou a larga noche, já que estamos na América Latina – das catástrofes.

Há um quadro menor, discreto, está na última sala de sua exposição, e não sei como se chama. Salvo engano, compõe uma série chamada “Futuro do pretérito”. Nele, guerrilheiros atravessam um rio. Estão mergulhados até a cintura, outros até o peito. Com fuzis para cima. Tornou-se lugar comum entre a crítica e os artistas o ataque às formas representativas na arte. Não me parece que você tenha caído nesse tabu – ao mesmo tempo, seus quadros não dão o passo atrás para o mundo em que símbolos e coisas se correspondiam. Nesse quadro, por exemplo, distinguimos os guerrilheiros. Mas é preciso olhar com calma. Estão mergulhados, é certo. Não em um rio. Mas em uma tinta. Amarela ou verde fluorescente (Marcela, eu sou daltônico, e pode ser que tudo isso tenha surgido por causa disso – espero que não). Arte e política – de novo? Sim, por que não? Mas uma arte que não se esquece amiga da política, e não substituta dela. E por isso reconhece o seu lugar de ação: os guerrilheiros representados mergulham na tinta irrepresentável da mesma maneira que você mergulha na técnica.

Eu ando quebrado, Marcela. Tive dias terríveis, um ano do cão. Na abertura da tua exposição estive com pessoas que quero guardar no bolso. Naquele dia enquanto tocava Bowie eu estava tão feliz. Aquilo não era uma vida feliz, mas a gente rodando, cantando, balançando pernas e braços de qualquer jeito, enquanto cantávamos que

There’s no sign of life
It’s just the power to charm
I’m lying in the rain
But I never wave bye-bye

(e que, mal traduzido, é meio que

Não há sinal de vida
É só o poder do encanto
Tô deitado na chuva
E eu nunca digo até mais)

– bem, aquilo era um lugar de ação da felicidade. Lugar de produção das técnicas da felicidade. But I try…

Até aqui a técnica serviu para que dominássemos aquilo que chamamos de natureza e para que dominássemos uns aos outros. Mas eu acho que a gente pode tentar outra coisa. Eu acho que a técnica pode ser mais do que isso. Ela pode ser não a formação do canteiro que controla o jardim, mas o cuidado que faz com que a selva cresça selvagem. A técnica pode ser qualquer coisa que desperta a virtude de todas as coisas. Essa é uma longa linhagem de pensamento sobre a técnica na qual acredito que o seu trabalho se encontre, Marcela.

E se os seus quadros fazem conviver, sob o princípio da montagem, seres e objetos que não convivem no mundo empírico, eles me lembram a teoria da atração universal de Fourier, esse socialista utópico que acreditava que a teoria da gravidade era a descoberta do fato de que todas as coisas do mundo tendem umas às outras, num erotismo universal. Para ele a técnica não nos faria distantes da suposta natureza, pelo contrário: o desenvolvimento técnico seria revolucionário porque faria despertar o que é virtual em tudo o que existe. Anéis para a Terra, como os de Saturno, novas coroas boreais nos polos, a harmonização entre todos os bichos, o desenvolvimento de cauda e de um terceiro olho entre os seres humanos, etc. Walter Benjamin certa vez disse que todas essas previsões de Fourier contam menos para crê-lo delirante, e mais para enxergar nesse delírio a fé colossal que o socialista tinha nas capacidades da técnica, uma vez direcionada corretamente. Não para o domínio, mas para o amor e para a paixão universais. A técnica como forma de amar ou de desejar. A técnica como Eros.

Marcela, eu estou tentando falar sobre o seu trabalho, nada disso é realmente sobre amigos, amigas, outros artistas, canções, tradução etc., me acompanha. Mas é sobre tudo isso também. Eu acho que pras coisas mudarem na real a gente vai precisar de muitas técnicas. As da felicidade, as da imaginação política, as do desejo. Acho que é por isso que estou te escrevendo.

Com um abraço,
Zacca.

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