Crítica semanal Vanessa Tangerini

“Potestad” : O teatro como relato da memória

A capacidade de elaborar relatos é exclusiva do ser humano. A memória é, em alguns casos, uma forma particular de relatar o que nos passou. Da mesma forma em que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, também não é possível recordar duas vezes a mesma lembrança inalterada.
Nos anos oitenta, Eduardo “Tato” Pavlovsky, um dos maiores dramaturgos argentinos e que esteve exilado durante a ditadura militar, escreve “Potestad”. Uma peça sobre a memória e sobre como ela pode nos levar a redescobrir o presente. O trabalho é um monólogo em que um homem conta sobre o aparente sequestro de sua filha. Suas memórias dos eventos omitem informações que mais tarde serão fundamentais para transformar o olhar do público.
A memória é sempre frágil e suscetível de ser transformada por novas informações que a ressignificam. Em seu texto, Pavlovsky demonstra como a memória é sempre um exercício de subjetividades.
Ao mesmo tempo, a partir da vitalidade da presença cênica, o trabalho soube interpelar o presente pós-ditadura de seu contexto para problematizar a história higiênica e ingênua que a democracia às vezes apresenta, lembrando que a injustiça e a violência podem ser tão horripilantes como enigmáticas.
“Potestad” retorna na atualidade para dizer que o horror não deve ser esquecido e que o presente sempre corre o risco de cair no abismo inconsciente da repetição do passado. Em uma produção nova e ousada, o diretor Norman Briski traz o clássico para a cena alterando as suas tradicionais formas estéticas, gerando um código inusual e provocativo.
“Potestad”, em primeiro lugar, resulta em sua versão mais recente, em um exercício para pensar sobre a memória. A obra evidência como o teatro é um evento cultural capaz de refletir sobre a capacidade do ser humano de gerar histórias a partir das suas memórias; mas, principalmente, como a memória sempre tem o seu outro lado. Às vezes o horror vem quando percebemos que, através da memória, ele também tem duas faces.
Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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