Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

A tradução clandestina de Kenneth Goldsmith

Na terceira edição da Desvairada: Feira de Poesia de São Paulo, que nesse ano aconteceu nos dias 4 e 5 de maio, na Biblioteca Mário de Andrade, organizada por Natália Agra e Fabiano Calixto, houve um best seller insuspeito.

Na região das mesas da Luna Parque, da Corsário Satã e da treme~terra, se bem me lembro, uma publicação esgotava os poucos exemplares, obrigando seu editor e autor a ir e voltar de casa para produzir “na raça na HPzinha” novos exemplares a serem rapidamente vendidos. 

parágrafos sobre arte escrita conceitual, de autoria de Sol Le Witt Kenneth Goldsmith, assim mesmo, empregando fontes riscadas e em negrito, trazia, além de uma breve apresentação, a tradução dos manifestos de Sol Le Witt, de 1967, e de Kenneth Goldsmith, de 2007, revelando, na verdade, nessa operação multitradutória, as intervenções que o escritor fez, 40 anos depois, no original do artista. 

Tendo se apropriado do texto de Le Witt, Kenneth Goldsmith compõe um réquiem para o artista, publicando dois meses depois da sua morte a sua versão. O procedimento é semelhante ao de um revisor de textos preparando um original para pública, mas trata-se de dois autores diferentes. A homenagem consiste em traduzir para a literatura aquelas proposições para as artes visuais. O atraso histórico sugerido pela operação quatro décadas distante é mais provocador do que verdadeiro, pois é o valor transdisciplinar do legado de Le Witt o que a própria obra de Goldsmith celebra. 

Por isso, a frase de abertura do texto traduzido anonimamente para o português talvez seja a mais importante por nomear o trabalho literário via tradução:

Vou me referir ao tipo de arte escrita com que estou envolvido como arte escrita conceitual. 

O decisivo é perceber que “escrita conceitual” não se posiciona nem claramente no campo das artes visuais nem exatamente no campo da literatura ou da poesia, sugerindo assim uma poética que dramatiza as instituições, as relações, os valores. É nesse sentido que algumas passagens do texto provocam humor, como a substituição de “arte expressionista” por “literatura romântica”, dado o anacronismo dos termos entre si. Afinal, o expressionismo abstrato, implicitamente referido em tom polêmico, não corresponde ao Romantismo, a não ser à força de simplificações. 

O tradutor não está presente. Embora ele tenha me vendido o livro a R$5,00 não consta seu nome na publicação, embora seu gesto multitradutório, ao explicitar o procedimento de Kenneth Goldsmith na reescrita do texto de Le Witt, sugira a tarefa da tradução como o trabalho de escrever entre os textos, numa rede de relações textuais indefinida.

 

 

Luiz Guilherme

 

Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

 

 

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