Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Teatro & poesia por Pierre Alferi

De 1993, a conferência pronunciada pelo poeta francês Pierre Alferi recebeu tradução de Inês Oseki-Dépré para o português nesse ano de 2019, publicada pela editora Luna Parque, de São Paulo. De um teatro de papel consiste num breve texto que revisita o debate acerca das lições críticas da obra de Stéphane Mallarmé, o poeta francês de fins do século 19 que programou, com sua obra, algumas dinamites para o lirismo e a escrita da poesia modernos. A edição é acompanhada de um posfácio do professor e poeta Marcos Siscar que procura interpretar os sentidos dessa tradução no contexto da poesia brasileira. 

Talvez seja possível destacar dois pontos da conferência de Alferi para apresentar brevemente sua argumentação. Num primeiro momento, a experiência de Mallarmé e Charles-Albert Cingria que, respectivamente em Igitur e Hyppolyte hippocampe, compuseram textos cênicos que impediam ou dispensavam a encenação (personagens que vivem embaixo d’água ou que desaparecem no palco, didascálias anti-realistas etc.), propõe a noção de um “teatro de papel” no qual o texto funciona como “partitura”. O termo francês “partition”, no texto original, remete simultaneamente à partitura e à repartição, de modo que a palavra partida em dois sentidos nomeia o texto que divide a voz em duas, empregando um procedimento estranho à tradição teatral: “a partição da voz deve ser, não representada pela convenção do diálogo, mas, sim, apresentada, realizada diante de nossos olhos, num teatro específico do escrito, um teatro de papel”. Experiência semelhante à que temos ao ler alguns dos textos recentes de Marília Garcia, editora do livro traduzido e poeta, nos quais a enunciação se multiplica em várias situações, que representam ou o processo de escrever o texto, indicando as datas em que trabalhou no texto, ou o momento “ao vivo” da leitura pública do texto, o agora da fala, que ecoa o agora da leitura. 

Um efeito da partição das vozes no texto mallarmeano, que se evidencia na experiência do Un coup de dés, o poema seminal que espacializa a sintaxe do verso contra o caligrama da mancha gráfica (que, metrificada em versos e estrofes, à época garantia que isso é um poema), é o “desdobramento da sintaxe”. Um pouco como a defesa do enjambement, a figura do verso que finda sem que a frase que o compõe tenha terminado, feita pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, segundo quem o verso, sendo uma linha desencontrada com o espaço visual da página, à diferença da linha da prosa se define pelo seu fim, portanto, pela possibilidade do enjambement. Um enjambement pode desdobrar a sintaxe como os “quarenta anos e nenhum problema”, de Drummond, que continua, no verso seguinte: “quarenta anos e nenhum problema / resolvido, sequer colocado”, em “A flor e a náusea”. O verso seguinte reescreve o verso anterior, alterando o seu sentido corroendo-o.

O texto programático de Pierre Alferi procura extrair da leitura de Mallarmé lições para a escrita contemporânea. No posfácio, Marcos Siscar destaca o “trânsito entre as artes” que marca a argumentação da conferência: teatro, cinema, espaço visual, música como modos de pensar o texto paradoxal da poesia, “teatro de papel”, partitura sem música, cinema cego etc. A pesquisa sintática a que o poema como partitura convida transforma o poeta num tradutor da própria língua, estranhando-a no processo mesmo de se lançar no texto, como quem chegou depois do poema. Grada Kilomba, em sua passagem memorável pelo Brasil, repetia a ideia de que o racismo acontece quando um passado de violência historicamente circunscrito afeta seu presente. Considero, portanto, à luz de sua fala, o “teatro de papel” proposto por Alferi como o momento em que o futuro historicamente invisível afeta o presente da escrita, sendo o enjambement, figura do futuro do verso, uma pequena ilustração dos modos como, para quem escreve, o poeta acontece depois do texto. 

 

 

Luiz Guilherme

 

Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: