Crítica semanal Lucas Rodrigues

Catalogando fetiches

Colecionar e catalogar é uma prática antiga, mas o apropriacionismo no trabalho de arte finca suas raízes, de fato, nos ready-mades de Marcel Duchamp, no auge do seu dadá; o termo no entanto só surge no final dos anos setenta, com a explosão das imagens nos meio de comunicação de massa. Hoje, na era da hiperinformação e do fortalecimento do sentimento blasé articulado pelo sociólogo alemão Georg Simmel, ainda é possível se colecionar e pinçar imagens no meio da tempestade caótica de referências que diariamente nos cegam.

Um olhar atento, é tudo que se precisa. É isso que Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, da cidade do Rio de Janeiro, apresenta em seu instagram, @ulissescarrilho, sua hashtag #sociopoliticalfetishes. O curador desloca imagens do cotidiano para o seu colecionismo fotográfico: suas fotografias catalogam homens de costas andando pela rua, na praia, em locais públicos e etc, que apresentam na parte de trás de suas camisas alguma escrita, sendo em sua maioria trabalhadores uniformizados em seus fazer cotidiano.

IMAGEM DENTRO DA CRÍTICA.jpg

#Sociopoliticalfetishes de Ulisses Carrilho / @ulissescarrilho

 

#Sociopoliticalfetishes centra-se em uma política dos corpos em seus costumes diários. Atletas, policiais, bombeiros e ambulantes são alocados em um fetichismo que pode ser interpretado como a eternização da figura do homem comum, retirando a carapaça midiática do masculino predador presente no imaginário inalcançável para o homem médio brasileiro. As imagens pinçadas pelo curador-artista servem para iniciar um debate sobre a masculinidade tóxica reforçada pelo machismo nosso de cada dia. Os homens comuns sem cabeça de Carrilho chocam-se com a representação masculina presente nas fotografias de corpos esculturais em uma semi nudez artística, que cada vez mais fazem-se presentes no debate imagético sobre o masculino.

Abrir a conversa do desencaixe do olhar do masculino na contemporaneidade pela busca da figura do homem banal, é um ato que revela a indisciplina do colecionismo de Ulisses Carrilho. A banalidade torna-se peça de uma grande coleção museológica, desvirtua as representações romantizadas do corpo do homem, desviando dos fetiches reforçados por nomes consagrados dentro de uma fotografia masculina que faz-se cada vez mais erótica na busca de pixels prazerosos que são curtidos e compartilhados especialmente pela comunidade gay nas redes sociais. O fetiche de Carrilho é, de fato, social, não corporal. A curadoria do artista apresenta um outro viés de se narrar o “ser homem”, utilizando-se do incessante trabalho de catalogar e classificar.

Carrilho mostra que estar aberto a um visível dentro da invisibilidade de certos recortes dentro da arte contemporânea é uma das chaves de se produzir uma imagética não-hegemônica. Seu trabalho de curadoria em #sociopoliticalfetishes revela mais do que um processo contemporâneo de produção artística: colocam diante dos olhos dos espectadores a emancipação de corpos bombardeados por um machismo que clama por machos-alfa. A banalidade é maior do que a idealização – e que seja sempre assim.

 

Lucas.png

 

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

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