Crítica semanal Pietro De Biase

A ELIPSE OCA

Em 1960, Brasília foi inaugurada. Essa utopia construtiva, uma vez materializada, corou a arquitetura modernista brasileira, na pessoa de Oscar Niemeyer. O arquiteto, de 53 anos à época, que já participara do projeto do edifício sede das Nações Unidas em Nova Iorque (1947), ganhou renome internacional após a concepção da Nova Capital brasileira. A plasticidade dos edifícios de Niemeyer, justapôs o racionalismo arquitetônico bauhausiano com as curvas barrocas, erigindo a imagem da modernidade nacional, perseguida pelo então presidente Juscelino Kubitschek. 

A década de 1960, momento da decolagem do plano piloto de Brasília conflui em um período de estabilidade e enriquecimento de muitas nações. Dentre elas, a recém liberada República Libanesa. Após conflitos internos oriundos da independência da França em 1943, o Líbano se apresentava como entreposto seguro aos interesses ocidentais. Seu sistema financeiro e seu clima mediterrâneo contribuíram para que o país ficasse conhecido como a Mônaco oriental. 

O país, no entanto, ainda sofria com a forte desigualdade social e a violência, notadamente entre as elites cristãs maronitas e as comunidades muçulmanas. A unidade nacional estava ameaçada. A construção de uma grande Feira Internacional em Tripoli, capital de maioria islâmica no norte libanês, lançaria a pedra angular da unificação do país, em torno do progresso. 

À imagem das Exposições Universais que marcaram a paisagem europeia desde o final do século 20, a Feira de Tripoli ambicionava sagrar o papel central do Líbano no Oriente Médio, bem como por fim à hegemonia de Beirute, levando a uma melhor repartição de receitas entre as regiões do país. Qualquer semelhança com Brasília até seria mera coincidência, se os libaneses não tivessem escolhido Niemeyer para o projeto. 

Em 1962, o arquiteto desembarca no Líbano para estudar os 70 hectares do terreno onde seria construída a Feira. Diferente do planalto brasiliense, Tripoli já era densamente urbanizada. Uma conurbação de souks costurada por minaretes. Oscar passou um mês estudando a geografia antes de elaborar o projeto, que, ao final, dispunha também de um plano de urbanização. 

Quiçá de forma inédita, as curvas barrocas do arquiteto foram dobradas pelos arabescos de Tripoli, findando por um traçado elipsoidal, que norteará muita das suas próximas obras. Fundada na relação forma-função, de Sullivan e Le Corbusier, o projeto de Niemeyer tem como eixo um pavilhão de formato elíptico, onde ficariam os salões de exposição. A inovação de Oscar nesse quesito é festejada. Diferente das outras feiras internacionais, onde havia uma aglomeração de pavilhões, a Feira de Tripoli perseguiu a forma monumental, comportando as funções cívicas e as relações cotidianas numa só construção. Orbitam em redor da elipse de Niemeyer, outras 15 estruturas de concreto. 

Em 1975, perto de sua conclusão, as obras da Feira foram interrompidas pela guerra civil que eclodiu no Líbano. Por 15 longos anos, a elipse testemunhou os horrores do conflito, sendo ocupada por diferentes grupos guerrilheiros e militares. Apesar do vilipêndio e da pilhagem, durante os anos da guerra, o eixo elíptico e suas estruturas satélite resistiram intactas. Como uma fratura exposta em meio à urbe, a Feira de Tripoli, rebatizada de Rachid Karami no pós-guerra, atualmente está em ruínas. 

A nudez crua das estruturas revela toda a sua plasticidade. Os rastros da umidade no concreto se aderem às marcas de tiro. E as vigas descobertas são antenas em busca de sinais. Ruína modernista. Paradoxalmente, à primeira vista, não se tem a impressão de se estar caminhando sobre os escombros daquela que seria a mais ousada intervenção urbana do Oriente Médio. A elipse está de pé. Seu eixo não sucumbiu. Tudo parece pronto a funcionar, se não fosse pela carcaça de concreto. Encantadoramente tétrica. 

A guerra ceifou a utopia construtiva do progresso libanês. A função aniquilou a forma. E a crença na emancipação pela beleza é paulatinamente drenada pelo tempo à obsolescência. Roland Barthes, em seu Império dos Signos, narra a história da cidade de Tóquio, que se aglomera em redor de um centro vazio, habitado por um imperador desconhecido. Um centro que não passa de uma ideia evaporada, cuja subsistência se justifica apenas para movimentar a cidade. A emoção da ruína na elipse oca de Tripoli aplaca o olhar sensível, que na busca pelo centro, encontra apenas o sonho. 

Tripoli_2019.1
Fotografia: Pietro De Biase
Tripoli_2019.2
Fotografia: Pietro De Biase

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. participou do laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do parque lage. atualmente, integra o programa imersões curatoriais da escola sem sítio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: