Crítica semanal Mariane Germano

A pintura como personagem em Mad Men

[3]Quatro funcionários de uma agência publicitária dos anos 50 entram escondidos na sala do diretor para ver um quadro recentemente adquirido por ele. Essa é uma das cenas da série Mad Men[1], em um episódio chamado The Gold Violin[2]. A causa da violação da sala é a convocação de uma reunião com o chefe do departamento de TV, e supõe-se que o  motivo dela é voltado à pintura. A expectativa sobre a obra aumenta e uma série de diálogos se desenrolam: “Você sabe que ele vai te perguntar sobre ela, não é?” “Uma das duas opções, ou ele amou e eu tenho que fingir amá-la, ou é uma piada e ele vai rir de mim quando eu fingir entendê-la.”

A invasão da sala gira em torno da tentativa de decifrar a pintura, e observações são levantadas à procura de seu significado. Trata-se do Four Reds de Rothko, de 1957 (uma cópia – a série teve permissão de recriar a obra para o episódio com a condição de que fosse destruída posteriormente). Na reunião, todas as expectativas são quebradas quando se percebe que esta é relacionada a qualquer outra coisa com números, e não sobre a opinião de uma obra – “Não se preocupe com estética, vai te dar dor de cabeça”. O diálogo segue em uma continuidade de quebra de tentativas de imersão, até que nos é entregue o motivo para a aquisição – ele acredita que a obra dobrará de valor até o próximo Natal.

O seriado muitas vezes discute a natureza dos desejos humanos, se queremos de fato algo, ou se a vontade nos é imposta. Muitos definem a temática da série com a frase “as coisas não são o que parecem ser”. De forma sutil, em meio a um episódio em que os personagens lidam com suas aspirações e as decepções que vêm com a insatisfação, coloca-se uma questão sobre fruição e consumo. Ter obras em cômodos de propriedade privada como forma de status social certamente não era o que pintor ou qualquer outro artista modernista tinha em mente, uma vez que se trata de uma corrente puramente política. Para Rothko, seguir tradições artísticas não era “somente irrelevante, mas irresponsável”, visto que o fascismo assombrava também com a distorção do discurso e censura de obras da época.

A burguesia se apropriou da produção artística como lógica de mercado, deixando a fruição de lado. Uma das falas na cena sugere que talvez o quadro não deveria ser explicado – “é como olhar para algo muito profundo”. Através da experiência sensorial, a pintura convoca o encontro com as emoções e os dramas humanos, o uso do inconsciente para abordar temas maiores. O abstracionismo favorece uma “expressão simples do pensamento complexo”[3], um convite para olhar não a pintura, mas encarar o vazio e a si mesmo – exercício que os personagens procuram evitar para não lidar com suas próprias frustrações e segredos obscuros, bem como os horrores de uma sociedade pautada no consumo. A mercantilização da felicidade em sociedade é traduzida pela negação da fruição em uma reunião sobre negócios.

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[1] Série americana criada por Matthew Weiner; 2007-2015.

[2] Temporada 2, episódio 7.

[1] Leia também MANFREDINI, Gabriela. Quatro dicas para entender Expressionismo Abstrato. 21 mai. 2019. Disponível em: <https://revistadesvio.com/2019/05/21/quatro-dicas-para-entender-expressionismo-abstrato/&gt;

 

Mariane

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé.

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