Crítica semanal Pietro De Biase

OXIMORO LUNAR

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Aqui é o centro, fotogravura de Anna Bella Geiger, 1973

A reflexão em torno da ideia de centro se evidencia como uma das mais antigas investigações civilizacionais, que, ao seu turno, não escapa ao agir estético. A pesquisa conceitual empreendida por Anna Bella Geiger, a partir da obra/experimento Circumambulatio (1972), que discute a busca imanente do ser humano pelo centro, dirigiu o interesse da artista para as “coisas cósmicas”.

Ebúrnea, a Lua, enquanto fronteira espacial, exerceu ao longo da História fascínio sobre a imaginação de muitos. Um sem número de artistas tomaram o satélite como referência poética. Geleira Sideral. Colmeia de estrelas. Dor cristalizada. Todos influenciados pelo temperamento enigmático e volúvel do astro. Lunáticos de fase. A visão lunar foi sobremaneira idealizada, o que se justifica, em parte, pela realidade social fustigada.

A partir de imagens da superfície lunar cedidas pela Agência Espacial Norte-Americana (NASA), Geiger inaugurou uma pesquisa inédita, por meio da inserção das fotografias obtidas na gravura em metal. Parte dessa produção, associada a sua “Fase Lunar”, encontra-se em exposição no Museu de Astronomia do Rio, em razão da celebração dos 50 anos da chegada do homem à Lua. 

A Lua de Anna desponta no crepúsculo dos idos de 1970, período de exceção no Brasil instalado pelo governo militar, marcado pelo recrudescimento do aparato repressivo estatal vis-à-vis das liberdades individuais. Sensível ao espírito do tempo e às constrições impostas pelo regime, a artista se volta para o satélite, como entreposto seguro ao pensamento crítico.

O deslocamento poético dispendido até a Lua retoma o exame conceitual perquirido anteriormente na circumambulação. Perscrutar a definição, e a finalidade, do centro funciona como a ignição da nave Geiger. A viagem aplaca o desejo pelo descentramento, razão primeva do deslocamento. Na vastidão cósmica, os limites se pulverizam, retrato da distância cuja medição mostra-se inviável, e, portanto, sublime. 

Longe de se restringir em locus amoenus, o cosmos proposto por Geiger não se priva dos seus questionamentos. A releitura das crateras lunares como folha de registro poética aponta para o interesse da artista na descentralização de alguns conceitos seminais, como, por exemplo, em polaridades, cuja verve dicotômica transparece um caráter político quanto metafórico como desejo da artista por uma dialética emancipada. Essa, longe do plano central terrestre. 

As articulações de Anna Bella sobre a topografia lunar friccionam o conceito de centralidade, esteja ele no campo físico ou no intelectual. A concepção insculpida pelo pensamento ocidental veiculou pelo mundo a ideia de que a identidade está ligada a uma matriz única e dorsal. Essa compreensão fulmina a alteridade, demovendo-a às órbitas marginais do sistema. 

A selenografia estética inscrita na expedição capitaneada pela artista conquista o território da Lua, para lançar as fundações de seu oximoro poético. – uma periferia central, no satélite. Em Pesadelo, Borges narra a história de um homem que se encontra no centro de um deserto. Após vagar dias e noites pelas dunas, ele se dá conta de que no deserto, sempre se está no centro. Da passagem fabulesca do escritor argentino, decola o oximoro lunar acionado por Geiger. 3,2,1, já! 

 

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Mare Tranquilitatis, fotogravura em metal de Anna Bella Geiger, 1973 

 

 

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

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