Crítica semanal Daniela Avellar

COMO SE CAIR FIZESSE VALER A QUEDA

Me chamou a atenção ler sobre o artista Bas Jan Ader[1] (1942-1975) em um dos últimos poemas do livro recém lançado pela poeta Maria Isabel Iorio[2]. Aos outros só atiro o meu corpo saiu pela Editora Urutau[3] na última quinta-feira. Se em seus momentos finais leio sobre queda, é mesmo com vontade de cair que li suas páginas todas em dois dias, sem medo da velocidade e do perigo. Como se do baque fosse possível levantar e seguir em constante movimento, buscando cavar outros buracos mais fundos (um buraco é um jeito de deixar cair) e procurar novas moradas.

Colagens e outras experimentações aparecem como interlúdios dentro do livro. Embora em alguns outros momentos os poemas de Isabel também relembrem uma junção de recortes, escolha de procedimentos, uma escrita mais próxima da prática conceitual se assim quisermos chamar. Suas poesias descrevem coisas palpáveis e concretas como batata frita, cigarro, band-aid, moletom, mouse de computador, azulejo. Os textos tem cheiro de tudo isso e sua escrita é profundamente marcada por um jeito de escrever, um jeito próprio de dobrar a língua.

No livro leio sobre coisas mundanas mas fundamentais, como quando a luz do corredor apaga e isso nos demanda um gesto para acendê-la de volta, que é tão imperceptível mas tão factível ao mesmo tempo. Ou do encontro entre vidro e vento quando uma ventania assola o dia. Escritos como esses jogam luz à fatos pequenos do cotidiano, tornam mais interessante e desdobrável aquilo que já está estratificado como hábito comum. Os poemas de Isabel tem potência de transformar uma experiência de fantasia em algo real e permitem um trajeto imaginário à realidade (não se sonhei ou se aconteceu). (O trabalho invisível, relatado pela poeta, que um artista consegue vender e instalar na casa do comprador, mesmo sendo feito de vento).

Maria Isabel escreve com a mão e sobre um (tanto) que gosta de fazer com as mãos (e com a boca). (Eu confesso, Bel, que particularmente tenho uma dificuldade frequente em decidir o que fazer com as mãos quando em público, principalmente nos momentos em que me sinto tensa ou nervosa, aperto-as sem parar e coço meus ombros de forma a fechar o corpo com os braços). O corpo em Aos outros só atiro o meu corpo (2019) me parece algo que deve ser construído, maquinado (me fascina toda máquina que não seja eu). Isabel escreve sobre coluna, postura, cabelo, pés, pernas (fundamentais para o amor). E sobre o esforço diário que é manter a homeostase do organismo, sobre o encontro de um pelo com outro pelo (de como isso é complexo, das necessidades de praticá-lo com afinco).

Por fim, sem grandes descobertas (exceto alguns dados empíricos citados) ou adivinhações (e isso é bom), não há um véu a ser desvendado. As coisas por elas mesmas, em suas abundantes materialidades. Fatos, coisas, fluidos, partes – um chão a ser deslizado em permanente queda e viagem. Leio o livro de Maria Isabel tentando atirar meu corpo no ato e como se cair fizesse valer a queda. Me atentando para no embalo não desmembrar por completo e eis aí o cuidado, o método. Entendendo que a particularidade de sua dobradura (feita de linguagem) envolve o processo de mexer nas coisas com as próprias mãos e com relativo zelo. Sejam elas rochas, uma cebola, uma maçã comprada no supermercado, o ipê amarelo ou mesmo as árvores de Copacabana.

[1] http://www.basjanader.com/

[2] https://mariaisabeliorio.myportfolio.com/

[3] http://editoraurutau.com.br/

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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