Desvio Indica

Entrevista Pedro Pessanha

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Artista e pesquisador carioca. Seus trabalhos questionam os limites entre a figura e o fundo, a palavra e a página: o quanto um depende do outro para se definir—ao mesmo tempo que pensam em estratégias possíveis para tornar essas fronteiras mais porosas.

 

_ Pedro, o seu trabalho tem um curioso início na materialização da palavra. De onde surge a inclinação em trabalhar e explorar essa possibilidade?

 

O interesse na palavra como matéria veio do desenho. Quando percebi que toda figura que eu desenhava dependia do fundo para lhe conceder sentido e que toda forma é definida pelo seu limite, comecei a pesquisar essa relação e principalmente a possibilidade do branco da página também funcionar como um elemento semântico – e cheguei a Mallarmé. Percebi que esse poeta francês, em seu poema Um Lance de Dados, começou a indagar questões semelhantes àquelas que me atravessavam no desenho, na poesia. Usando o espaço entre as palavras como elemento central da leitura, pautando a relação de aceleração ou dilatação, assim como levando em consideração aspectos materiais da palavra, seu tamanho e posição, o poema funcionava como uma partitura, rica em leituras possíveis. Me interessei então por essa abordagem e incorporei a palavra no meu trabalho, aproximando-me dela visualmente como eu me aproximava das formas no desenho – mas também levando em conta suas dimensões verbais e sonoras, particularidades que abriram novas possibilidades poéticas.

 

_ Quando você fala sobre Mallarmé, a relação entre a proposta dele e a sua obra ficam bastante explícitas, principalmente quando tratamos do ato de experimentar a grafia enquanto objeto. Quando você se apropria da palavra e potencializa suas possibilidades, surgem diversos caminhos a serem seguidos. Como foi, pra você, essa experiência de descobrimento?

 

Acho que muito desse abraço da palavra na minha produção veio justamente quando comecei o estudo e pesquisa formal da produção escrita na arte. Para além do uso da palavra como objeto, qual o lugar da palavra na arte – e qual o meu lugar no meio disso tudo? Me sentia por vezes sobrecarregado pela bibliografia histórica, principalmente quando se tratava de autores europeus. A incorporação da palavra como matéria – logo algo que eu poderia moldar como quisesse – veio também como um ato político, de afirmação. Essa capacidade multiplicadora do sentido que é consequência direta da aproximação da palavra como objeto, é para mim também uma ferramenta ética, um compromisso histórico.

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_ Na tentativa de materializar a palavra, sua produção encontra a forma não apenas do papel, suporte tradicional utilizado para concretizar a linguagem escrita, mas também estruturas. Um dos seus trabalhos, “Instruções para uma escuta/ Instruções para uma fala”, além da estrutura como forma, também soa quase como escultura quando você permite ao espectador, a possibilidade de criação, e a possibilidade de participar do processo de produção do trabalho, acabando por se transformar também em criador. Como você enxerga esse processo obra/espectador? De onde surge a inspiração para desenvolver tais objetos?

 

A relação entre o espectador e a proposta artística é muito importante para mim. Neste trabalho em particular, ela é central. O trabalho surgiu de uma matéria com Tato Taborda, onde pensávamos estratégias possíveis para atingir ouvidos divergentes, em um quadro de acentuada polarização política. Me ocorreu então a formulação de instruções para a construção de um megafone, um objeto que funciona ao mesmo tempo como um amplificador da fala e da escuta. A montagem do objeto em si já cria uma relação de alteridade, a partir do encontro que o leitor tem com o texto proposto: ele escolhe a ordem dos módulos, quais deles ficarão internos, quais deles ficarão externos, o que será descartado – tudo isso são escolhas que serão feitas ao construir esse dispositivo, decisões que vão alterar e criar novas relações semânticas entre as palavras inscritas nele.

A espacialização da palavra – do plano para o espaço- além de afastar a noção falsa de que ela funciona num plano virtual e neutro, dotada de uma imaterialidade que geralmente atribuímos à página ao desprezarmos sua espessura, também permite novas leituras ao gerar ângulos novos. Seus vértices multiplicam as aproximações possíveis, podemos girar as palavras nas mãos e descobrir seus avessos. Daí meu interesse em tornar páginas, sólidos. Explorei essa ideia no meu livro Navalha no Olho, onde procuro traçar estratégias de construções, textuais e espaciais, através de uma série de poemas montáveis.

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_ Você pode comentar um pouco mais sobre o “Navalha no Olho”?

 

Navalha no Olho é o livro que desenvolvi como meu projeto de conclusão do curso de Artes na UFF. Ele funciona como um manual de leitura, onde proponho uma instrumentalização do olhar, evidenciando suas condições construtivas, tanto materiais quanto discursivas. Nas páginas do livro estão citações distribuídas entre sólidos planificados e no espaço entre eles. Convido o leitor a montá-los e, nesse processo, criar sentidos novos a partindo das palavras impressas em suas faces.

Muito da elaboração do livro veia da minha dúvida de como lidar com quem veio antes, o encontro com materiais escritos e manifestos de diversos movimentos históricos que lidaram com as questões que me interessavam antes de mim. Como eu poderia contribuir, o que poderia adicionar, depois de tantos esforços? Fui percebendo então que o trabalho seria justamente sobre esse encontro com o os escritos de outros autores, o que me interessava neles e as relações que eu poderia construir botando eles em choque.

O livro então se deu como um exercício daquilo que ele mesmo propõe: um discurso/objeto construído a partir de fragmentos de textos meus e de outros, um reencontro com palavras alheias, uma procura do oposto de cada uma, na busca de uma voz própria.

 

_ Sempre que encaro seus trabalhos, a aleatoriedade volta a me cutucar. Ao criar projetos táteis, sensoriais e participativos, você convida o público a participar e se inserir na obra. Alguma vez durante a elaboração dos seus trabalhos surgiu uma reação inesperada, e talvez até aleatória como reação à sua produção?

 

Sempre que convidamos a participação do público, temos que estar prontos e disponíveis para o inesperado. Por vezes esse convite extrapola a participação e se torna mais próxima da co-criação. Em Caminhando com Xisto, por exemplo, quando propûs à quem visitasse a exposição a montagem uma fita de moebius e disponibilizei cola para isso, novas formas surgiram, algumas contínuas, coletivas, emboladas em si, que talvez digam mais ainda sobre esse caminhar do que aquilo que eu teria sugerido inicialmente. Esse tipo de reação criativa, de uma certa violação e ruptura em relação à proposta inicial, talvez seja o objetivo final implícito em tudo que faço: fazer com que o leitor traga sempre consigo uma navalha no olho, ressignificando e trazendo para si tudo que encontra pela frente, mantendo sempre uma postura de leitura ativa.

 

 _ Sobre fala e escuta. Quando a gente formula um discurso, seja ele material ou imaterial a gente passa por esse processo de troca, troca de informações, troca de saberes, e as vezes passa também pela experiência frustrada da comunicação falha. Parte do seu processo gira em torno dessas trocas. Quando você fala sobre descarte, você enxerga nele alguma possibilidade criativa?

 

Sim, a liberdade de dar importância apenas aquilo que te interessa, a capacidade de edição, de botar em choque a palavra do outro com aquilo que você carrega consigo, é essencial. Acredito que o encontro de duas vozes acaba por trazer mais que sua mera soma, cria uma relação entre elas, capaz de multiplicar seus sentidos. Acho isso chave inclusive em termos de produção de conhecimento numa perspectiva descolonizante, no sentido de manter uma atitude indecorosa e criativa com a escrita vinda dos países historicamente centrais, de abandonar uma postura subserviente, passar de meros repetidores da palavra da metrópole para autores da nossa própria.

 

 

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_ Pedro, ao observar sua produção percebo que diferentes poéticas o envolvem. Em “Caminhando com Xisto”, além da materialização da palavra, ao observar seus trabalhos, também percebo a incidência das ideias de passado, presente e futuro. Não é por acaso que essa peça em especial, se concretiza na forma física da fita de moebius. Qual a sua relação, como indivíduo e artista com essas ideias?

 

Pensar a temporalidade da leitura é essencial para o que venho desenvolvendo. O presente parece estar sempre achatado entre uma ideia de passado e de futuro por vir. O presente é tão fino como uma página – tão fino que é quase desprezível – mas sem essa espessura não seríamos capazes de imprimir nele sentido ou experienciar qualquer coisa. Essa materialidade do presente é justamente o campo da leitura, o campo onde o leitor se constrói. Meu interesse também é manipular esse campo de forma que o tempo da leitura se dilate e o leitor possa se perceber lendo. Se perceber percebendo.

Por isso a fita de moebius me interessou para esse trabalho em particular. Sem interior nem exterior definidos, ela permite um caminhar que não tem início nem fim, que é contínuo no seu movimento. Cheguei a ela a partir de uma proposição de Lygia Clark, Caminhando. Em uma dupla apropriação, imprimi nas fitas um poema de Pedro Xisto ”andando nos seus lábios quando você me perguntou onde eu estava” que compartilha com a forma a particularidade de que pode ser lida começando em qualquer ponto e saindo em qualquer outro. O tempo dessa leitura então ganha espessura, por sua falta de compromisso com um futuro ou um passado que o comprima.

 

_ Muito frequentemente seus trabalhos percorrem as ideias de passado, presente e futuro. Durante a investigação das possibilidades que cercam tais conceitos, você também encontra as noções de infinito e aleatoriedade. Como essas ideias se relacionam com você enquanto artista e com a sua produção?

 

De fato, são ideias que atravessam muitas propostas minhas. Essa temporalidade de que vinha lhe falando, essa manipulação das estruturas de leitura para chamar atenção para o momento da construção de sentido, também foi o que me levou à elaboração de VOO e Aleatório.  Aleatório é um pequeno livro-poema, que funciona como um flipbook. Em cada página, mudo as vogais do título, gerando um novo sentido: élooteria, elaoteria, eleotário, eliiteriu, etc. Ao passar as páginas rapidamente, a palavra se transforma, como em um caça-níquel. A leitura então se dá tanto nesse movimento da transformação formal da palavra quanto na aleatoriedade de parar e se deparar com algum dos anagramas possíveis. Em VOO, esse movimento é automático: cubos, com letras em suas faces, flutuam sobre ventiladores, girando de forma errática. Para formar palavras, o leitor deve capturá-las no ar e, no instante em que elas são formadas, já não existem mais. Aqui, a estratégia é acelerar a transmutação das palavras e explicitar o caráter ativo da leitura: se escrever é pastorar tempos, ler é caçá-los. Ambas as propostas apostam em estruturas que tenham um caráter cíclico, que geram um infinito em possibilidades de leitura: se cada escolha é uma bifurcação do leitor, o caminho/sentido é construído por ele, numa proposição feita por mim, mas que revisita seu momento de criação no contato com o outro, num contínuo movimento de recomeço e reinvenção, de diluição de autoria.

 

_ Quando você fala sobre movimento de recomeço e reinvenção, me pergunto como são esses processos pra você. Alguma vez, durante a elaboração de algum projeto você já se sentiu estacionado?

 

Sim, claro, mas acho que uma das coisas interessantes de criar propostas abertas, ao tempo e à leitura, é que muitas vezes elas te surpreendem, mesmo na elaboração. Por exemplo, em VOO, meu objetivo é que os cubos formassem as palavras AVE ERA ASA, mas a própria estrutura que eu escolhi para isso trouxe muitas outras: ARA, que é uma espécie de pássaro e altar, ERE, palavra em yorubá para brincar, EVA…. Enfim, quando você dá espaço para as propostas se desdobrarem, elas mesmo te ajudam a continuar em movimento.

_O “AVE ERA ASA” tem algum significado específico pra você?

 

VOO é também uma homenagem a Wlademir Dias-Pino, figura importante do poema/processo e autor de um dos primeiros livros produzidos no Brasil cuja leitura se dá a partir sua própria estrutura e não a usando como um mero suporte – um livro-poema, portanto – chamado “A Ave”. VOO então funciona também como um comentário crítico, um objeto ensaio: AVE ERA ASA chama a ideia de que a construção de sentido é algo dinâmico, que se dá em seu processo, em seu movimento, em seu voo.

 

 

 

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_Para concluir, dá para perceber o seu trabalho como uma proposta de constantes desdobramentos e reinvenções de sentido. Eu queria saber como você se sente enquanto artista em meio a tudo isso?

 

Acho que procurar esse movimento constante de construção de sentido, tendo como motor o leitor e o próprio trabalho, me põe em um lugar de liberdade, de me manter também em constante reinvenção, sem compromisso com uma posição fixa. Torna possível conjugar o trabalho de outros autores que me precederam, ao mesmo tempo que procuro estabelecer propostas que instiguem outros a também instrumentalizem seus olhos e estabeleçam leituras atuantes. Essa postura dinamiza meu lugar como pesquisador e artista em um país periférico, multiplicando minhas possibilidades no caminho para encontrar minha própria voz, sempre comprometida e estruturada em uma escuta ativa.

 

 

 

Lista de exposições:

Coletivas

Andando na História do Meu Povo, 2019

Galeria Gustavo Schnoor

SomaRumor – Encontro Latino-Americano de Arte Sonora, 2019

Espaço Apis

Galáxias, 2019

Centro de Artes UFF

Rastros, 2019

Orgâni.Co Ateliê

II PEGA – Encontro de Graduações em Artes, 2018

Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica

Modos Rítmicos: Algo, 2018

Centro de Artes UFF

Constelação XVIII, 2018

Centro de Artes UFF

Ocupação Diálogos, 2017

Teatro Cacilda Becker

Bandeiras na Praça Tiradentes, 2017

parte da residência Remixofagia

(realizada junto com o coletivo Norte Comum)

Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica

II Coletiva EAV 2014

(com o coletivo Caleidoscópio)

Parque Lage

 

 

Design sem nome

 

Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte em andamento na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro. Bolsista do projeto “Mapeando Arte e Cultura Visual Periférica”.

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