Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Na Feira Tijuana

A questão ali não é tanto a de resistir à indústria. O parque gráfico que uma feira como a Tijuana instala, itinerante como a Fórmula 1, como uma banda de rock, como uma colmeia, nem é mambembe mas também pode ser. Há gravuras, lambes, cadernos, panos de prato, camisetas, HQs, objetos etc. e livros. Uma amiga que encontrei ontem no Parque Lage disse estar se sentindo em São Paulo. Ao fundo dela, um cartaz estampava a palavra: “Terraiz” – inventada por @dan.scan. Trouxe um livro que não comprei, em vez disso assinei um contrato com a autora me comprometendo a enviar em troca do livro um e-mail de acordo com as orientações dela. Na feira gráfica, as trocas entre palavra falada e palavra escrita, imagem impressa e paisagem, conversa e contrato, são vertiginosas, como se a piscina das selfies daquela mansão tivesse transbordado para os saguões da casa, ar e água trocassem de lugar.

Já cometi excessos nessa situação. Por exemplo, tenho em casa uma versão d’O Livro, de Mallarmé, concebida por Klaus Scherübel e editada pela galeria Tijuana: um paralelepípedo de isopor do tamanho de um livro com centenas de páginas, encapado com um papel azul celeste que faz as vezes de capa do livro que não existe. O objeto me custou caro numa Tijuana passada e eu, que sou colecionador amador e, por isso, ingênuo, encontrei outro dia marcas profundas das garras dos gatos com quem convivo na contracapa de isopor d’O Livro de Mallarmé! Sim, O Livro existe, os gatos jogaram isso na minha cara, mas não consigo lê-lo. 

Elegância, na Tijuana como na FLIP, é compreender que, no fundo, não é pelos livros, não é pela superfície impressa. A melhor homenagem à cultura gráfica está em conhecer as pessoas que participam da rede de produção – e nesse sentido a indústria talvez seja precisamente a figura ausente numa feira como essa. Penso nos trabalhadores das gráficas, nos trabalhadores das indústrias de papel, nos trabalhadores das indústrias de tintas. Ali estamos entre artistas, editores, designers, leitores. As pessoas que usam os materiais. Estamos em São Paulo mesmo numa Tijuana carioca porque estamos no meio das cidades para onde vai a maior parte da produção industrial destinada à cultura gráfica, e São Paulo, a maior cidade do Hemisfério Sul e das Américas, representa esse destino. 

Não sei se chega a pôr em jogo mas traz à tona a relação entre a letra, a imagem e o capital. Nessa edição carioca da Feira Tijuana, que acontece sábado, 10, e domingo, 11, desse mês de agosto, uma chamada aberta organizou a Parque Longe: Exposição de Arte Postal, que recebeu colaborações impressas ou digitais diversas. Propus um tuíte em linguagem abjeta, apropriando-se do estilo daquele vereador carioca, o 02: “Por que tentam dar a mim uma importância negativa num contexto político que não tenho gerência alguma? Se isso for real saiba que o intuito é barrar o crescimento dos que vivem de forma diferente. Está muito fácil derrotar o lixo que nos destruiu! As bactérias estrebucham.” 

Ali na feira, o elogio do escrever, do desenhar e do publicar pode soar fácil, mas precisa ser vivenciado e compreendido em sua dificuldade. A cultura gráfica, assim como a cultura letrada, continuam a ser um desafio numa sociedade em geral pouco dedicada ao livro e à página escrita ou desenhada. Por isso, visitar uma feira gráfica pode significar uma experiência democratizadora, no sentido de que, em alguma medida, uma democracia pode se decidir na página impressa. É a lição, por exemplo, de Ray Bradbury, em Farenheit 451, bem como a lição do anticientificismo e da cultura das fake news reinantes. O déficit de letramento da sociedade brasileira explica muito do momento em que vivemos, e a vertigem de uma feira gráfica implica um mergulho num país diferente das timelines e dos jornais, embora o mesmo. 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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